A convivência com o mercado ilegal e a normalização do comércio irregular são nítidas nas ruas das principais metrópoles do país. Na cidade do Rio, uma caminhada por Copacabana revela uma vasta oferta de produtos piratas e falsificações. Na rua Siqueira Campos, no espaço de apenas uma quadra entre a Barata Ribeiro e a Edmundo Lins, foram identificados pontos de venda a poucos metros um do outro em plena calçada. É um trecho movimentado, ao lado de uma estação do metrô, de três supermercados e de várias lojas, lanchonetes, restaurantes e bares. Todos, até prova em contrário, seguindo as regras. Em uma banca com centenas de armações de óculos, um homem que se identificou como Ramiro, de 32 anos, disse faturar cerca de R$ 500 em um dia de boas vendas de modelos falsos das marcas Dolce&Gabbana, Prada, Dior e Ray-Ban. Sobre a procedência, o vendedor foi evasivo: — Talvez sejam da China, do Vietnã ou aqui pertinho do Paraguai, mas saber eu não sei. Sobre o fornecedor, o vendedor disse ter alguns, mas que agora comprava mais de um homem conhecido como Paulista. Um segundo vendedor, que não quis se identificar, mantinha bolsas e carteiras femininas de marca no chão da calçada. Ele ficava afastado da mercadoria e só se aproximava quando alguém demonstrava interesse. Mais adiante, Sérgio, de 45 anos, vendia guarda-chuvas, pilhas e tomadas, mas o carro-chefe eram as camisas oficiais da seleção brasileira, com estampas dos patrocinadores. Ele conta ter faturado muito durante a Copa do Mundo e que o volume caiu depois da eliminação do Brasil, mas "sempre vende, porque os turistas gostam muito". No país, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) calcula que o mercado ilegal movimentou R$ 179,2 bilhões em 2025, o equivalente a 13,8% das vendas de quatro segmentos do varejo: combustíveis, vestuário, eletroeletrônicos e produtos farmacêuticos e cosméticos. Em 2010, o percentual era de 7,5%. A maior parte (R$ 100 bilhões) do faturamento do mercado ilegal vem de combustíveis e lubrificantes. Segundo a confederação, esse valor corresponde a 18% de tudo o que o setor vende. Para o economista-chefe da CNC, Fábio Bentes, a maior proporção do setor é explicada pela dificuldade do consumidor saber o que, de fato, está comprando: — É muito difícil, quando você vai abastecer o seu carro, ser garantido que aquele combustível não tenha procedência ilegal. Não é uma questão nem de campanha educativa, é uma questão de fiscalização. Como a economia subterrânea não aparece nas estatísticas oficiais, a CNC estima quanto o varejo deveria ter vendido a partir do comportamento do mercado de trabalho, do crédito e dos preços, e compara com o que o IBGE aponta de faturamento. A diferença é atribuída ao comércio ilegal. — A economia subterrânea é o que a gente chama de uma variável latente, não observada. Você não consegue enxergar isso no dia a dia. Mas ela deixa rastros em outras variáveis econômicas — explica o economista da CNC. Preço baixo como atrativo da ilegalidade Do outro lado do balcão, o cliente costuma saber de onde está comprando. Uma sondagem do Instituto Fecomércio RJ com 1.012 consumidores da Região Metropolitana do Rio, feita em novembro de 2025, mostra que 78,3% dos que já compraram no mercado informal apontam o preço mais baixo como atrativo. Para 70,6%, os produtos são mais baratos porque não pagam impostos. Outros 21,3% atribuem o preço menor à origem ilegal da mercadoria, ligada a carga roubada. Segundo a Fecomércio RJ, o gasto anual com o mercado informal na região metropolitana foi estimado em R$ 4,5 bilhões. — A nossa pesquisa é no mercado informal, quando não se comprou dentro de uma loja. Aí eu não posso dizer se é um produto de origem ilegal ou se é um produto que só não tem nota fiscal. Ele pode ser fruto de roubo de carga, mas eu não posso dizer que é ou não — explica João Gomes, diretor-executivo de Pesquisas e Análises do Instituto Fecomércio RJ. Entre quem vende no mercado formal, a percepção é de piora. Outra sondagem do instituto, feita com empresários do Centro do Rio, mediu como os comerciantes enxergam o avanço da informalidade na região. — Quase 37% dos empresários disseram que perceberam aumento na informalidade. Em 2025, esse percentual tinha sido próximo de 32% — afirma João. Para 60,9% desses comerciantes, segundo o Instituto Fecomércio RJ, o problema está disseminado por toda a área central da cidade. A irregularidade mora ao lado No Centro, a escala é outra. O Polo Saara reúne cerca de 1.200 estabelecimentos e recebe em torno de 100 mil pessoas em um dia comum. Esse número, segundo estimativa da associação, pode ficar cinco vezes maior em períodos de Natal e Carnaval. — O Saara compreende o universo apenas de lojas, não tem boxes. Não temos nenhum estabelecimento informal associado — afirma André Haddad, presidente do Saara. Dono de uma loja de uniformes profissionais em frente ao camelódromo da Uruguaiana, ele conta que convive com o comércio ilegal ao lado: — O impacto é diário. Nós convivemos com os informais como vizinhos. Você tem ali os ambulantes legalizados pela prefeitura e tem os ilegais, que ocupam espaço público, de passagem dos pedestres. Ele descreve a poluição visual e sonora, os produtos sem procedência competindo com quem paga imposto e o consumidor obrigado a desviar para a rua. Para a associação, a saída passa por dar um lugar de trabalho a quem hoje trabalha na calçada. Depois de um incêndio destruir parte dos boxes do camelódromo, a prefeitura prometeu aos comerciantes, em janeiro de 2025, um novo centro comercial. O projeto do Novo Mercado Popular da Uruguaiana, lançado em março deste ano, foi orçado em R$ 74,2 milhões, com licitação já realizada e entrega prevista para o início de 2028. O presidente do Saara diz não ver movimento: — Até agora eu não vi execução de nada. Se realmente a prefeitura quer solucionar, não basta vir apenas com a ordem pública e tirar esses trabalhadores informais da rua. Você tem que dar condições para eles se instalarem. Questionada sobre o atual andamento da obra, a prefeitura disse que "trabalha no projeto executivo do Novo Mercado Popular da Uruguaiana e na realocação temporária dos comerciantes locais. A previsão de término das obras é 2028". Itens apreendidos Bem ao lado do Saara, o Mercado Popular da Uruguaiana é um dos principais polos de atuação da Delegacia de Repressão aos Crimes Contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM). Comércios populares de Madureira, Nova Iguaçu, São Gonçalo e Petrópolis também encabeçam a lista. Apenas no primeiro semestre deste ano, a DRCPIM apreendeu 222.325 produtos irregulares. O número é 397% maior que as 44.778 apreensões feitas em 2024. Em relação ao ano passado, quando foram retirados de circulação 154.534 itens, o aumento foi de 44%. Em valor, no entanto, o ano passado lidera, com R$ 3,4 milhões. No primeiro semestre de 2026, foram R$ 2,1 milhões. Só neste ano, foram 189 mil figurinhas falsificadas, item de baixo valor unitário que responde pela maior parte do volume do ano. Aparecem ainda mais de 9 mil capas de celular, 7.828 peças de vestuário, 2.860 óculos e mais de 2 mil dispositivos de cigarro eletrônico. Nos dois anos anteriores, quem liderava era o vestuário, com azeite e bebida alcoólica. Já a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) informa ter apreendido 31.322 itens na cidade neste ano, quase metade (48,95%) deles em Copacabana. Na sequência, aparecem Ipanema (9,55%) e o Centro (3,35%). A maioria é de alimentos perecíveis (33,1%), seguidos por bebidas e roupas. Vale frisar que o trabalho da Seop é de ordenamento urbano, o que não representa necessariamente repressão à falsificação. Em julho, o município lançou o Programa Tolerância Zero na orla do Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon, e informa ter investido "R$ 7,5 milhões na renovação das 1.500 barracas legalizadas". No recorte nacional, a Receita Federal apreendeu R$ 4,19 bilhões em mercadorias em 2025, o que representa um aumento de 11,4% sobre os R$ 3,76 bilhões de 2024. O próprio órgão classifica a alta como "ligeira e em valores nominais", ou seja, sem desconto da inflação. No Rio, o crescimento foi de 72,2%, partindo de R$ 181,8 milhões para R$ 313,1 milhões no mesmo período. No primeiro semestre deste ano, foram R$ 2,15 bilhões apreendidos no país, dos quais R$ 167,3 milhões no estado. Entre as categorias que lideram as apreensões nacionais, em 2026, estão eletroeletrônicos, com R$ 614,2 milhões; cigarros e similares, com R$ 385,6 milhões; veículos, com R$ 236,9 milhões; e medicamentos, com R$ 108,9 milhões. Segundo a Receita Federal, os bens submetidos à pena de perdimento podem ser incorporados a órgãos públicos, doados, leiloados ou destruídos, conforme a natureza do produto. Falta de dados O que não se informa é o tamanho do problema. Questionada sobre o tamanho do comércio irregular na cidade e sobre o impacto na arrecadação municipal, a Secretaria de Fazenda não apresentou estimativa. A Seop, procurada em seguida, também não informou números sobre o volume desse mercado na capital. Para o coordenador de Estado e Crime Organizado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Leonardo Silva, essa dificuldade de estimar vem da falta de informação sobre até onde chegou a cadeia que abastece o mercado ilegal. — Existe uma estrutura de logística que vem conectando cada vez mais camadas, se consolidando e crescendo para fazer com que produtos que entram ilegalmente no país possam ser vendidos em diferentes locais, sob a gerência de uma mesma organização — afirma. Na ponta dessa cadeia, o vendedor percebe a mudança sem saber explicá-la. Em um espaço entre prédios de Copacabana, o porta-malas de um carro escorava uma grade de falsas sandálias da marca Havaianas. Ao ser questionado sobre a procedência, o comerciante Antônio, de 56 anos, arriscou na resposta: — Antes vinha tudo lá de fora, acho que da Ásia, mas agora já tem gente fazendo aqui dentro mesmo.
Mercado ilegal na porta da loja formal: produtos falsificados disputam espaço com quem paga imposto
Só no primeiro semestre, delegacia especializada retirou mais de 222 mil produtos irregulares de circulação no Rio











