Pedro Sánchez afirmou que nenhuma prova sobre a participação ativa de Rabat na crise foi apresentada, enquanto oposição e populares questionam evidências e culpam governo pela falta de medidas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, discursa no Parlamento sobre crise migratória em Ceuta — Foto: Thomas Coex O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, voltou a isentar o governo do Marrocos de qualquer culpa pela crise migratória registrada no mês passado na cidade autônoma de Ceuta em um discurso no Parlamento espanhol nesta quinta-feira, em uma tentativa de dirimir a pressão sobre seu Gabinete em Madri — alvo de pedidos de renúncia da oposição e de protestos populares, que levaram milhares de pessoas às ruas do exclave no norte da África na noite de quarta-feira. — [Nenhum órgão governamental ou entidade internacional] forneceu ao governo espanhol provas sólidas de que o Marrocos tenha planejado ou executado o incidente — afirmou Sánchez diante do Parlamento, reafirmando a versão oficial de que redes de desinformação teriam incentivado as travessias irregulares. — Se tais provas sólidas existissem, agiríamos de acordo, com a máxima firmeza que a situação exige. A ida de Sánchez ao Parlamento ocorre em um momento de particular pressão sobre seu governo de esquerda. Milhares de pessoas foram às ruas naquarta-feira, na Espanha continental e em Ceuta, para protestar contra a política migratória do país. Os atos foram ainda mais inflamados após a divulgação de um suposto relatório policial, que teria indicado "a permissividade" da polícia marroquina e o efetivo "sensivelmente menor do que o habitual" durante a crise. O documento foi divulgado pelo site El Español. Autoridades do governo e policiais rejeitaram que qualquer documento oficialmente produzido aponte qualquer autoria. Analistas apontaram que a incomum onda migratória — na qual ao menos 70 mil pessoas cruzaram a fronteira terrestre entre a África e a União Europeia em questão de horas — provavelmente guardava uma mensagem política de Rabat, descontente com a reaproximação entre Madri e a Argélia, com quem tem disputas em aberto quanto ao reconhecimento do Saara Ocidental e é concorrente em projetos no setor de gás natural. Ainda no Parlamento, Sánchez argumentou que o problema da migração africana irregular para a Europa tinha raízes estruturais, acrescentando que a construção de "uma muralha de 100 metros" não seria suficiente para controlar o fenômeno, que reputou ser impulsionado por fatores como pobreza e miséria. O premier defendeu ainda a cooperação e ajuda internacional como forma de superar a crise. — Esse é um modelo baseado em ciência, humanidade e solidariedade — disse Sánchez, afirmando que cortar recursos desta natureza aumentaria os gastos com controle de fronteiras. Manifestantes seguram bandeiras de Ceuta e um cartaz com a frase "Rei Felipe VI (da Espanha), estamos à sua espera" durante uma manifestação realizada em 2 de setembro — Foto: Antonio Sempere/AFP As posições do premier não foram suficientes para conter a insatisfação e as críticas da oposição. O líder da maior sigla de oposição no Legislativo espanhol, Alberto Núñez Feijóo (Partido Popular), pediu a renúncia de Sánchez por razão de "incompetência" ou "cumplicidade", e a convocação de eleições antecipadas, citando as manifestações da noite anterior. — [As pessoas que participaram queriam] ser, mais uma vez, um agente soberano de sua própria política. Uma nação no controle de seu destino — disse Feijóo, que também se referiu à polêmica sobre a participação da nação africana na crise, questionando por que o premier "tem medo do Marrocos?. O líder do partido de extrema direita Vox, Santiago Abascal, escalou ainda mais a crítica ao primeiro-ministro, a quem acusou de "traição" pela postura durante a crise e após, no que se refere à posição adotada sobre Rabat. Abascal confrontou a versão do governo sobre o papel das redes de desinformação on-line, afirmando que "uma farsa on-line não mobiliza 100 mil pessoas". Soberania A crise migratória provocou uma série de questionamentos ao governo sobre a capacidade espanhola de defender a soberania do país — e europeia — nas cidades autônomas no norte da África. O governo da Itália suspendeu a livre-circulação de pessoas provenientes da Espanha, um dos pilares garantidos pela União Europeia, citando o risco de uma entrada em massa de indocumentados. Em Ceuta, uma localidade com pouco menos de 90 mil habitantes, o cenário também foi apontado como um risco existencial. Em Madri, Sánchez também tentou enviar mensagens de força. Ele prestou solidariedade à população de Ceuta, que disse estar passando por "tempos difíceis" e reafirmou a soberania espanhola sobre o território e Melilla — inclusive mencionando medidas diplomáticas adotadas contra o Marrocos, após declarações de ministros do país, que em comentários à imprensa sobre a crise, reivindicaram os dois exclaves. — Rejeitamos categoricamente. Convocamos o embaixador marroquino em 21 de agosto — disse Sánchez. — Há séculos, essas duas cidades são espanholas... E garanto que, no que diz respeito ao governo espanhol, elas assim permanecerão até o fim dos tempos. O chefe de governo também defendeu que o rei Felipe VI visitasse as duas cidades "nas próximas semanas" para transmitir "o compromisso absoluto do Estado" com elas. A última visita de um monarca espanhol a esses dois territórios remonta a novembro de 2007, quando o rei Juan Carlos esteve no local — um gesto que desencadeou uma crise diplomática com Rabat. (Com AFP)