Aquilo que pode aumentar rapidamente o músculo que vemos no espelho também pode prejudicar silenciosamente estruturas que não conseguimos enxergar 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Não vale tudo para conseguir músculos — Foto: Magnific Ter mais músculos ajuda a viver mais. Mas usar hormônios para conseguir esses músculos pode produzir o efeito contrário. Essa aparente contradição merece atenção num momento em que ganhar massa muscular virou sinônimo de saúde e longevidade. E há boas razões para valorizarmos nossos músculos. Eles ajudam a controlar a glicose, protegem articulações, preservam força, equilíbrio e autonomia e são fundamentais para chegarmos bem às idades mais avançadas. O problema é quando transformamos uma associação verdadeira — mais força e músculos estão relacionados a um envelhecimento melhor — numa conclusão perigosa: quanto mais músculos, melhor, independentemente da maneira como sejam conquistados. Um estudo publicado em 2024 na revista científica JAMA ajuda a colocar essa discussão em perspectiva. Pesquisadores acompanharam 1.189 homens dinamarqueses usuários de esteroides anabolizantes e compararam seus resultados com os de 59.450 homens. A idade média era de apenas 27 anos. Depois de 11 anos de acompanhamento, 33 homens do grupo que usava anabolizantes haviam morrido. No grupo de comparação, que era 50 vezes maior, foram 578. Feitos os ajustes estatísticos, os usuários apresentaram um risco de morte 2,81 vezes maior. Quando os pesquisadores separaram somente as mortes por causas naturais, o risco ainda foi 2,24 vezes maior entre os usuários. Nas mortes por causas não naturais, principalmente acidentes, chegou a ser 3,64 vezes maior. Entre as causas naturais de morte apareceram principalmente doenças cardiovasculares e câncer. É importante interpretar corretamente esses números. O estudo é observacional, portanto, não permite afirmar que os anabolizantes foram responsáveis por todas essas mortes. Pessoas que utilizam essas substâncias podem ter outros comportamentos de risco que também influenciam os resultados. Também não podemos transformar o estudo numa calculadora e afirmar que usar anabolizantes tira cinco, dez ou quinze anos de vida. Mas quase três vezes mais mortalidade é um sinal difícil de ignorar. Existem razões biológicas para essa preocupação. O abuso de esteroides anabolizantes está associado a alterações da pressão arterial, do colesterol e do hematócrito, além de mudanças estruturais no coração e maior risco de aterosclerose e arritmias. Ou seja: aquilo que pode aumentar rapidamente o músculo que vemos no espelho também pode prejudicar silenciosamente estruturas que não conseguimos enxergar. E aqui precisamos fazer uma distinção muito importante: anabolização não é sinônimo de reposição hormonal. Quando um homem apresenta sintomas de hipogonadismo e níveis de testosterona repetidamente baixos, existe uma condição médica que pode justificar tratamento. Um dos maiores estudos sobre essa questão foi o TRAVERSE, publicado no New England Journal of Medicine. Foram estudados 5.246 homens entre 45 e 80 anos, com sintomas de hipogonadismo e testosterona abaixo de 300 ng/dL em dois exames, além de doença cardiovascular. Depois de 33 meses de acompanhamento, eventos cardiovasculares importantes ocorreram em 7% dos homens que receberam testosterona e em 7,3% daqueles que receberam placebo. A reposição não aumentou os principais eventos cardiovasculares nesse grupo. Entretanto, houve maior incidência de fibrilação atrial, lesão renal aguda e embolia pulmonar entre aqueles que receberam testosterona. Portanto, não faz sentido colocar no mesmo pacote o tratamento médico de uma deficiência hormonal e o uso de doses suprafisiológicas de hormônios com finalidade estética ou de performance. Mas, também não deveríamos transformar testosterona em uma espécie de vitamina da longevidade.
Anabolizantes: músculos que custam anos de vida
Aquilo que pode aumentar rapidamente o músculo que vemos no espelho também pode prejudicar silenciosamente estruturas que não conseguimos enxergar







