A receita para implodir o próprio corpo quase sempre começa com um hormônio anabolizante. Em seguida, se acrescenta alguns peptídeos sintéticos. E, depois, para dar um toque de natureza, ervas e outros produtos vendidos como "verdes". A expectativa é crescer os músculos, ter pele e cabelos renovados. O resultado pode ser hepatite fulminante. Médicos têm visto um aumento dos casos de distúrbios hepáticos graves causados por "bombas" para músculos. Esses casos se somam aos já conhecidos, de problemas cardíacos e de infertilidade. O aumento das bombas é puxado pela explosão do consumo de canetas emagrecedoras. O emagrecimento acelerado e sem orientação adequada de dieta e exercícios leva a uma redução brutal de massa magra. A diminuição de massa muscular pode alcançar mais de 30% do peso total perdido, pois os músculos representam cerca de 50% da massa magra. Junto com músculos se vão cabelos e o viço da pele e aí, em desespero, muita gente recorre às bombas. Anabolizantes aumentam os músculos. Mas cobram caro ao corpo. Além dos anabolizantes, há os produtos ditos naturais, a maioria com plantas. E se somam a eles uma infinidade de compostos com peptídeos, todos vendidos sem segurança e certeza sequer sobre o que de fato há no produto. Alguns ainda recorrem a chips de beleza de composição incerta. Pelo menos uma pessoa por semana chega ao consultório do hepatologista Gustavo Pereira com lesão grave no fígado decorrente de bombas. — É uma epidemia de bombas, uma loucura o que estamos vendo. Na busca por beleza e saúde, muitas pessoas acabam encontrando a doença — afirma Pereira, coordenador do serviço de hepatologia dos hospitais Vitória e Samaritano Barra da Rede Américas, professor do Programa de Pós-Graduação em Clínica Médica (PPGCM) da UFRJ e presidente do Grupo de Fígado do Rio de Janeiro (GFRJ). Inexistem no Brasil números precisos sobre os casos de doença e morte por bombas. — Vemos no dia a dia casos cada mais frequentes, mas não se sabe o percentual de população afetada por lesões hepáticas e hepatite fulminante causadas por bombas no Brasil. Estamos fazendo um inquérito nacional sobre transplantes de fígado associados a esse problema — diz Coelho. Estilhaços pelo corpo O objetivo é hipertrofiar os músculos, mas quando bombas explodem, seus estilhaços atingem o corpo todo, especialmente coração, fígado e aparelho reprodutivo. E há pesquisas revelando danos no cérebro. E as bombas não se limitam aos hormônios esteroides, sobretudo sintéticos de testosterona. Agora são turbinadas com um arsenal de peptídeos variados, produtos ortomoleculares não autorizados, suplementos de minerais e vitaminas e dezenas de ervas. Seca barriga Os médicos estão particularmente preocupados com o aumento de distúrbios causados por chás e outros produtos à base de plantas vendidos como naturais, diz Henrique Sérgio Moraes Coelho, professor de Clínica Médica e Hepatologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e hepatologista do Hospital São Lucas, da Rede Américas. Coelho cita o caso do chá seca barriga, que pode chegar a conter 30 ervas. Ele já atendeu um caso grave do seca barriga. A paciente era uma mulher de 42 anos, que comprava ervas em feiras e plataformas digitais. Ela não teve o corpo que queria, mas foi parar na UTI com lesão hepática. Em cinco dias, o quadro se agravou para encefalopatia hepática e insuficiência renal. A mulher sobreviveu, mas precisou de transplante de fígado. Na lista das ervas que podem ter efeitos tóxicos estão quebra-pedras, chá verde (Camellia sinensis), sene, kava-kava, maca peruana, cúrcuma, erva-de-São-Cristóvão e confrei. Este último é tradicionalmente usado na pele para cicatrizar lesões. Mas se for tomado como chá, pode causar problemas no fígado. Os problemas vêm de doses elevadas, interações tóxicas com outras plantas e drogas, uso sem comprovação de segurança. Há um fascínio por plantas e tudo que se vende como natural, diz Coelho. Mas elas podem ser altamente tóxicas, mesmo que sejam usadas há séculos como parte do conhecimento tradicional. Muitos suplementos vendidos livremente em lojas de produtos naturais ou pela internet não possuem regularização adequada junto à Anvisa. Além disso, diz Pereira, produtos sem procedência comprovada ou divulgados com promessas fabulosas podem conter substâncias tóxicas. — Planta não é garantia alguma de segurança. Nada mais tolo da crença do "mal não faz" — alerta Pereira. Hepatite fulminante Com 39 anos de idade e corpo atlético, o fisioterapeuta Marcelo Camargo (o nome é fictício para preservar a identidade) deu entrada na UTI com sangramento generalizado. Seu fígado tinha parado de funcionar. Em vez de livrar o corpo de substâncias tóxicas, envenenava outros órgãos. O diagnóstico era hepatite fulminante e a única chance, um transplante. Um irmão era o possível doador. Mas o corpo de Marcelo já não suportava esperar a chegada do irmão e os órgãos estavam sendo devastados pela doença. Os médicos recorreram a uma medida desesperada: extraíram o fígado destruído pela inflamação e mantiveram Marcelo vivo por meio de aparelhos. É possível fazer isso por cerca de 24 horas. Mas Marcelo não suportou e morreu. Como ele já chegou inconsciente e a família não deu detalhes, a composição exata da bomba que matou Marcelo não é conhecida. Médicos dizem que casos assim têm se tornado frequentes, tanto pela hepatite fulminante quanto pelo fato que as pessoas recorrem a misturas cada vez mais incertas na busca pelo corpo perfeito. E pouca gente acaba por revelar o que de fato tomou. Cacos de vidro O hepatologista João Marcello de Araújo Neto, professor da UFRJ, não consegue esquecer de Maurício Souza, um rapaz de 24 anos que atendeu no Hospital Universitário Clementino Fraga com lesões extensas na pele. Usuário de anabolizantes, Maurício tinha a pele amarelada e se coçava sem parar. O diagnóstico era colestase, distúrbio em que há interrupção do fluxo de bile, o líquido produzido pelo fígado que ajuda na digestão das gorduras e na eliminação de toxinas do organismo. Quando a bile não flui até o intestino, seus componentes se acumulam no sangue e nos tecidos do corpo. A colestase pode causar danos graves e irreversíveis no fígado e no organismo. E entre seus sintomas estão a icterícia e o prurido. A coceira intensa não passa com nada e é provocada pelo acúmulo de sais biliares na pele. Mas o que chamava atenção eram as lesões profundas na pele do rapaz. Maurício contou ao médico que a coceira era tão enlouquecedora que começou a se coçar com um facão. Como a coceira não cedeu, ele passou a usar cacos de vidro. Ficou todo cortado. — O mais importante é eliminar a causa do problema, isto é, o uso dos anabolizantes. Essa coceira não tem um tratamento específico e não passa com antialérgicos — conta Araújo Neto. O rapaz ficou seis meses péssimo até melhorar. Gustavo Pereira acrescenta que a coceira causada pelas bombas pode ser incapacitante. Em caso extremos, é preciso recorrer a transplante de fígado. Testosterona e cia. Anabolizantes são remédios. Eles servem para quem tem deficiências ou certos distúrbios de saúde. Mas usados indevidamente são a receita certeira para problemas. Além da mais do que falada testosterona, tem preocupado o uso maciço de oxandrolona. Ela é um esteroide anabólico androgênico sintético (derivado da testosterona). É um medicamento de uso controlado, para indicações específicas, como caquexia (fragilidade letal causada pelo câncer) e queimaduras graves. Como outros anabolizantes, a oxandrolona é facilmente encontrada nas plataformas de comércio eletrônico. Relações perigosas Quando associados a outros remédios, as bombas podem ter seus efeitos nocivos potencializados. Um exemplo de associação perigosa é combinar anabolizantes com Roacutan, um remédio para acne. Como os anabolizantes causam justamente espinhas, usuários podem recorrer ao Roacutan, e é elevado o risco de interação medicamentosa com efeitos graves. Apenas uma dose Reações graves a bombas não dependem de dose e podem acontecer sem sinal prévio. As reações variam com características individuais. Não têm necessariamente relação com a quantidade de bomba usada. Efeitos nocivos podem tanto evoluir gradativamente e se tornarem crônicos, quanto causarem uma reação súbita e aguda. É o que pode ocorrer em alguns casos de hepatite fulminante. Detox impossível O fígado é o grande processador químico do corpo. Quando alguém se bomba, cabe a ele tentar limpar o corpo. Sobrecarregado, ele começa a sofrer e os distúrbios podem ser crônicos ou agudos. E um dos grandes riscos de agravamento é que os distúrbios do fígado podem evoluir silenciosamente e só se manifestar quando já são graves. Hepatites medicamentosas e outras doenças hepáticas podem levar a quadros severos. Para alguns pacientes a única opção é o transplante de fígado, um procedimento complexo e com disponibilidade limitada. Cérebro envelhecido O uso de testosterona e outros anabolizantes pode causar envelhecimento cerebral acelerado, mostrou um estudo do Hospital Universitário de Oslo (Noruega), publicado na revista Biological Psychiatry: Cognitive Neuroscience and Neuroimaging. Utilizando ressonância magnética estrutural, os pesquisadores mapearam o cérebro de halterofilistas e descobriram que o uso crônico de testosterona e derivados provoca neurotoxicidade. O cérebro dos usuários apresentou uma idade cerebral significativamente mais avançada do que sua idade cronológica e afinamento do córtex. Isso pode explicar casos de depressão severa e problemas cognitivos observados após a interrupção do uso. Coração partido Muita gente acredita que os danos ao coração podem ser revertidos com a interrupção do uso de anabolizantes. Mas um estudo holandês chamado HAARLEM demonstrou que nem todos os danos são reversíveis, mesmo com tratamento. Publicado no periódico European Journal of Endocrinology, o estudo indicou que a hipertrofia do coração e a pressão arterial melhoram após a interrupção. Porém, efeitos como a queda drástica do colesterol bom HDL e o aumento do ruim (LDL) somados a uma rigidez arterial periférica produzida pela bomba iniciam um processo de aterosclerose acelerada. Esta gera microlesões nas paredes dos vasos sanguíneos, que se acumulam silenciosamente ao longo dos anos. A consequência são danos irreversíveis. Gato por lebre Um dos alertas de médicos e cientistas é que produtos vendidos tanto como peptídeos sintéticos quanto como compostos naturais podem conter hormônios anabolizantes, sem que isso seja informado. Araújo Neto diz que muita gente pensa que os músculos cresceram porque peptídeos ou chips de beleza funcionam mesmo sem anabolizantes. Mas, na verdade, foram enganadas e estão se bombando com esteroides. Pesquisadores da Universidade de Harvard identificaram que uma parcela significativa de produtos vendidos como naturais nos EUA estava secretamente adulterada com drogas sintéticas proibidas. Os consumidores eram expostos a compostos que causam toxicidade hepática e arritmias, disfarçados sob o selo de "100% natural". O estudo foi publicado na revista JAMA Network Open.
Bombas para os músculos: o preço que o corpo paga pela hipertrofia, órgão por órgão
Uso de anabolizantes, peptídeos e produtos "naturais" pode causar danos ao fígado, coração, cérebro e aparelho reprodutivo







