Inicialmente previsto pela administração de Donald Trump como uma operação de algumas semanas de duração, o conflito de Estados Unidos e Israel com o Irã completou seis meses na última sexta-feira, sem a queda do regime teocrático ou indícios de um acordo de paz definitivo. Iranianos radicados em São Paulo e no Rio de Janeiro que mantêm contato com familiares no país descreveram ao GLOBO a pressão que a alta de preços e desvalorização da moeda iraniana exercem atualmente sobre o custo de vida no país e dizem não enxergar saída imediata. — Tenho notícia de muita gente que só toma café da manhã ou almoça, porque não pode comer três vezes por dia — afirma Ario Nasiri, chef do restaurante Kebab Persa, em São Paulo, que vive no Brasil há 13 anos. A população iraniana sofre as consequências de sanções econômicas desde a Revolução Islâmica, de 1979. Desta vez, porém, os efeitos de seis meses de guerra e do chamado “Dia D econômico” tendem a ser maiores. Jovens desanimados As novas sanções impostas pelos EUA na semana passada prometem reforçar medidas contra parceiros comerciais, empresas e instituições fora do Irã, mirando atingir as linhas de sustentação da economia do país nos setores de ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo. A inflação disparou, chegando a mais de 80% ao ano. O rial, a moeda iraniana, atingiu o menor valor histórico em relação ao dólar, e itens básicos como carne e remédios se tornaram inacessíveis, principalmente para quem depende de um salário mínimo. Segundo Najad Khouri, pesquisador-chefe do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Oriente Médio (Gepom) e professor da Fundação Getúlio Vargas, as novas sanções americanas são uma tentativa de estrangular o regime e forçá-lo a um acordo. Khouri caracteriza o momento atual como “nem guerra, nem paz”: sem acordo entre os países, com endurecimento da ala militar do Irã e ameaças de ataques a países vizinhos (como os Emirados Árabes Unidos) que decidam aderir às novas sanções. Ontem, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, reconheceu que as sanções prejudicam a economia. — Estamos em estado de guerra e devemos aceitar as condições de guerra. Nasiri afirma que a situação de seu país natal é “muito complicada”, principalmente devido ao cenário econômico e à repressão a manifestantes, que se acentuou desde o ano passado. — Quem está no governo são pessoas que não se importam com o povo do Irã. A gente tem notícia de que a parte econômica está quebrada, muitos jovens estão desanimados. Todo dia dedico tempo para conversar e animar as pessoas. Digo: “vai resolver, vai mudar, a gente precisa de vocês para o futuro do Irã” — diz ele, que, para evitar a vigilância exercida pelo governo iraniano sobre plataformas como Instagram e WhatsApp, se comunica com seus conterrâneos por meios alternativos. Crítico ao regime, ele cobra apoio da comunidade internacional para a derrubada do governo. — O mundo não se importa. Somos o povo mais sozinho do mundo. Não podemos esperar que um país de fora entre e nos liberte. A única coisa que a gente quer é que os líderes mundiais que falam todo dia sobre democracia, direitos humanos e essas histórias bonitinhas apoiem o povo em vez de apoiar o regime terrorista islâmico. A ofensiva de EUA e Israel não surtiu o efeito esperado sobre o regime. Desde março, o posto de líder supremo do país é ocupado por Mojtaba Khamenei, filho do aiatolá Ali Khamenei, morto no primeiro dia da guerra, em 28 de fevereiro. O pesquisador da FGV avalia que, apesar das divisões étnicas e políticas existentes no país, a campanha militar unificou parte da população contra a interferência externa. Ele também aponta retrocessos nas liberdades civis e na economia, que “voltou para a década de 1980”. No Rio de Janeiro há mais de 40 anos, o iraniano Jamshid Naderi fala semanalmente, por chamadas de vídeo, telefone e WhatsApp, com a irmã, o cunhado e sobrinhos, que vivem em Teerã. Alinhado ao regime, ele afirma que a família está bem e vive da aposentadoria do casal, mas reconhece o impacto da inflação. — Com o dólar alto, a situação ficou apertada. É como diz o ditado: “Na guerra, não distribuem chocolates” — afirma Naderi, que trabalha com restauro de antiguidades (é especialista em tapetes persas) e acredita que o conflito reforçou o sentimento antiamericano no país. — A luta continua. O Irã não vai ceder. ‘Nunca fica normal’ Um professor universitário iraniano radicado no Brasil, que preferiu não se identificar, disse ao GLOBO acompanhar diariamente a situação no país por canais de notícia e pela troca de mensagens com familiares e amigos. Ele relata momentos de apreensão após bombardeios atingirem locais próximos à casa dos pais, em um bairro de classe média de Teerã. Era madrugada e levou algum tempo para se certificar de que eles estavam seguros. — Nunca fica normal, você só aprende a viver com as preocupações — diz o professor, cuja família recusou sua proposta de vir ao Brasil para se proteger da guerra. — É muito dolorido para mim, olhando de longe. Mas, me colocando no lugar deles, é compreensível. Segundo ele, permanecer em suas casas é visto como ato de resistência por quem já sobreviveu a conflitos passados no país, como a Guerra Irã-Iraque, na década de 1980. Entre 2025 e 2026, ele visitou o país de origem em duas ocasiões: depois da Guerra dos Doze Dias, conflito entre Israel e Irã em junho do ano passado, e em julho deste ano. Em Teerã, observou que não faltam produtos, mas a inflação explodiu. Os preços sobem diariamente, impactando o poder de compra dos mais pobres. Esse é um dos assuntos principais entre os iranianos. Em alguns casos, a situação tem impulsionado a solidariedade entre famílias ou entre proprietários e inquilinos, conta o professor. Ele também considera que os ataques ao país fortaleceram o apoio de parte da população iraniana ao regime e aponta que avanços sociais recentes, como na liberdade de expressão e nos direitos das mulheres, regrediram: — Lamento porque demorou bastante tempo (para haver conquistas), muita gente dedica sua vida a isso, sofre na prisão. Com a guerra, ninguém mais fala de direitos humanos, e partidos políticos não têm mais espaço — diz ele, que critica o retrato do Irã por parte do Ocidente como um país totalmente fechado, povoado por fundamentalistas. — A sociedade iraniana é muito dinâmica, pujante e, com muito custo, conseguiu avanços sociais. Os polos são minoritários, grande parte da população quer vida tranquila e está sofrendo. Os iranianos ouvidos pelo GLOBO dizem não enxergar saída imediata para o conflito. Entre acordos de paz descumpridos e sem perspectiva de rendição, acreditam que a guerra pode se prolongar indefinidamente, um cenário perigoso para o mundo e de tensão interna crescente. Para o pesquisador Najad Khouri, a esperança é que a pressão econômica obrigue a negociação de um acordo. — Vamos esperar que haja uma saída honrosa para todas as partes, porque ninguém quer declarar que perdeu. E que isso aconteça o mais breve possível, para evitar mais sofrimento ao povo iraniano — diz.