Como a Groenlândia virou cortina de fumaça para a batalha entre Rússia, China e EUATrump alega que os EUA precisam anexar a Groenlândia por ‘questões de segurança nacional’, mas especialistas rebatem ameaça russa e chinesa. Crédito: Larissa Burchard/EstadãoGerando resumoUm dos poucos países europeus que não fazem parte da União Europeia, a Islândia vai às urnas para responder uma pergunta simples: a Islândia deve retomar as negociações de adesão a União Europeia? A votação, para a qual estão habilitadas 400 mil pessoas, tem como objetivo descongelar o processo de adesão após mais de uma década.PUBLICIDADEO pedido original foi apresentado em 2009, após o colapso do setor bancário islandês na crise financeira global, e as negociações avançaram até serem congeladas em 2013 por um governo de centro-direita. O tema voltou ao centro do debate político depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou anexar a Groenlândia, vizinha da Islândia, reacendendo discussões sobre segurança, soberania e a dependência do país em relação aos EUA. PublicidadeProtesto contra a reabertura das negociações de adesão da Islândia à União Europeia, em Reykjavik, Islândia, em 27 de agosto de 2026 Foto: Jonathan NACKSTRAND / AFPO que dizem as pesquisasUma pesquisa Gallup divulgada às vésperas da votação mostra um cenário de empate técnico. Entre os entrevistados que já se posicionaram, 51,5% disseram que pretendem votar “sim” à retomada das negociações, contra 48,5% pelo “não”, diferença dentro da margem de erro de 2,5 pontos porcentuais. Em relação ao levantamento anterior, feito em junho, o dado mais relevante não foi uma virada de lado, mas o aumento do número de eleitores que dizem estar decididos sobre seu voto, sinal de que o tema deixou de ser secundário na política interna do país.O que está sendo votado, afinal?O referendo de sábado não decide se a Islândia vai entrar na União Europeia. A votação trata apenas da retomada das negociações, suspensas em 2013. Caso as negociações avancem e resultem em um acordo de adesão, esse acordo teria que ser aprovado por todos os atuais membros do bloco e, depois, submetido a um segundo referendo na Islândia, no qual a população teria a palavra final sobre entrar ou não na União Europeia. PublicidadeO governo de coalizão de centro-esquerda liderado pela primeira-ministra Kristrun Frostadottir, eleito no fim de 2024, prometia justamente essa consulta popular em sua plataforma de campanha.A primeira-ministra islandesa, Kristrun Frostadottir Foto: AP /Marco Di MarcoO debate entre os islandeses gira essencialmente em torno de soberania, mas os dois lados enxergam o conceito de formas opostas. Para os que se opõem à adesão, o país já colhe os benefícios da integração europeia, como o acesso ao mercado único por meio do Espaço Econômico Europeu e a livre circulação garantida pelo acordo de Schengen, sem abrir mão do controle sobre recursos próprios. Já os defensores da entrada no bloco argumentam que, num mundo de alianças cada vez mais instáveis, ficar de fora da União Europeia é o que de fato fragiliza a soberania islandesa.O que acontece se o “sim” vencer?Uma vitória do “sim” reabre formalmente as negociações de adesão que ficaram paradas por mais de uma década. O pedido apresentado pela Islândia em 2009 nunca foi retirado oficialmente, algo confirmado tanto pela Comissão Europeia quanto pela sua presidente, Ursula von der Leyen, durante visita ao país em julho de 2025.PublicidadeQuando o processo foi interrompido, em 2013, 27 dos 33 capítulos temáticos de negociação já haviam sido abertos e 11 estavam concluídos, o que dá à Islândia um ponto de partida bem mais avançado do que o de um país candidato pela primeira vez.O governo islandês estima que as conversas substantivas poderiam recomeçar entre outubro e dezembro deste ano, com o processo completo levando de 18 a 24 meses caso haja disposição mútua entre as partes. Leia tambémAmeaças de Trump no Ártico estão empurrando a Islândia para os braços da União EuropeiaOs islandeses adoram suas piscinas. Só não conte isso aos turistasMas mesmo com as negociações retomadas, nada estaria automaticamente decidido, qualquer acordo final ainda precisaria ser aprovado pelos 27 membros da União Europeia e, na sequência, pelos próprios islandeses em um segundo referendo.PublicidadeO que acontece se o “não” vencer?PUBLICIDADESe o “não” vencer, o processo se encerra ali mesmo. O governo já afirmou que respeitará o resultado das urnas, e não há previsão de uma nova tentativa a curto prazo. Na prática, a Islândia manteria sua posição atual, fora da União Europeia mas integrada ao bloco por meio do Espaço Econômico Europeu, do acordo de Schengen e, mais recentemente, de uma parceria de segurança e defesa assinada com a União Europeia em março deste ano.Neste caso, a Islândia manteria o controle sobre setores estratégicos, como a pesca, sem se submeter às regras e obrigações que valem para os demais Estados-membros do bloco.O peso de Trump no votoA consulta popular estava originalmente prevista para o ano que vem, mas a data foi antecipada depois que Trump voltou a insistir publicamente na possibilidade de anexar a Groenlândia, território autônomo dinamarquês que faz fronteira geográfica próxima com a Islândia. PublicidadeEm mais de uma ocasião, durante declarações sobre o tema no Fórum Econômico Mundial em Davos, Trump chegou a se referir à Groenlândia chamando-a de Islândia, o que gerou apreensão em Reykjavik mesmo depois do Departamento de Estado americano esclarecer a fala como um lapso de linguagem.Trump diz que ‘ninguém pode defender a Groenlândia como os EUA’Apesar disso, Trump disse que não fará o que muitos líderes mundiais temem: usar a força para obter a Groenlândia. Crédito: AP/YouTubeO episódio ainda foi seguido por uma brincadeira mal recebida do novo embaixador americano no país, William Long, que sugeriu que a Islândia poderia se tornar o 52º estado dos Estados Unidos e que ele seria o governador. Long pediu desculpas, mas o comentário levou milhares de islandeses a assinar uma petição contra sua nomeação.O clima de instabilidade em torno da política externa americana reacendeu também a discussão sobre segurança. A Islândia é o único membro da Otan sem forças armadas próprias e depende da aliança, e em especial dos Estados Unidos, para sua defesa. Com Washington visto como um parceiro cada vez menos previsível, parte da população islandesa passou a olhar para a União Europeia como uma garantia adicional. PublicidadePresidente dos EUA Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca em Washington, DC, em 27 de agosto de 2026. Foto: Jim WATSON / AFPO bloco não é uma força militar, mas possui uma cláusula de defesa mútua pouco conhecida em seu tratado. O governo islandês, no entanto, é claro ao afirmar que os pilares de sua defesa continuariam sendo a Otan e o acordo bilateral com os Estados Unidos, já que a eventual adesão europeia não mudaria a forma como o país opera dentro da aliança militar.Por que a pesca é o principal ponto sensível?Entre todos os temas em disputa, a pesca é considerado o mais delicado. O setor representa uma parcela expressiva da economia islandesa, e o receio de perder autonomia sobre ele é uma das principais bandeiras de quem defende o “não”. Esse receio ganhou força nos últimos anos com os cortes de cotas pesqueiras impostos à Irlanda, país que já é membro do bloco, e que atingiram duramente suas comunidades costeiras.Um barco de pesca atracado no porto de Reykjavik, na Islândia, no domingo, 9 de agosto de 2026 Foto: AP /James Brooks Nas negociações de adesão realizadas entre 2009 e 2013, o capítulo referente à pesca sequer chegou a ser aberto, já que era tratado como um dos pontos mais sensíveis do processo. Caso as negociações sejam retomadas, o governo islandês pretende buscar garantias específicas nessa área, entre elas a definição da zona ao redor da Islândia como uma área especial de gestão pesqueira, a manutenção do controle nacional sobre a definição de cotas e a alocação de quot5as dentro da zona econômica exclusiva do país, além de restrições ao investimento estrangeiro no setor e regras que vinculem os direitos de investimento à residência no país.PublicidadeAo mesmo tempo, alguns islandeses dizem se sentir encorajados por sinais de que a União Europeia poderia estar disposta a fazer concessões em relação às cotas de pesca caso isso ajude a viabilizar a entrada do país no bloco, o que mantém o tema como uma das principais variáveis em aberto para o resultado das negociações, caso elas sejam retomadas.Vale ler tambémComo a falência da Venezuela ajudou a mudar a América Latina? Entenda no vídeoAs lições para o Brasil da postura canadense em relação a TrumpPor que Trump está usando vistos de entrada nos EUA como ferramenta de pressão política?
Islândia vai às urnas hoje para decidir se retoma negociações para entrar na União Europeia
Pedido original foi apresentado em 2009, após o colapso do setor bancário islandês na crise financeira global, e as negociações avançaram até serem congeladas em 2013











