Eduardo Real, 39, passou por 14 internações em CTs (comunidades terapêuticas) em um ciclo de 15 anos entre uso de crack e situação de rua. No período, relata ter sofrido espancamentos, trabalho forçado, homofobia e racismo religioso contra sua fé no candomblé.

A virada veio ao conhecer, ainda internado, textos sobre a luta antimanicomial que sua irmã lhe entregava nas visitas. A partir de 2020, passou a ser acompanhado por um Caps (Centro de Atenção Psicossocial) dentro da lógica de redução de danos.

Hoje é mestrando em saúde pública na USP (Universidade de São Paulo), está há sete anos sem uso e sem internações. Em 2022, ajudou a fundar o Movimento Nacional de Vítimas de Comunidade Terapêutica. "Transformar a dor em luta, esse é o lema maior do nosso movimento", diz.

A trajetória de Eduardo ilustra um debate que ganhou novos números com um relatório do Desinstitute, organização dedicada a direitos humanos e saúde mental, que aponta que os repasses federais às comunidades terapêuticas têm crescido sem indicadores públicos, como taxa de ocupação, reinternações, encaminhamentos à rede de saúde ou mortes ocorridas nesses locais, que justifiquem o investimento.

As CTs são instituições privadas financiadas com dinheiro público para tratamento de álcool e outras drogas baseado em abstinência e longas internações. Com base em dados abertos do Portal da Transparência, extraídos em 1º de julho de 2026, o levantamento mostra que os repasses federais a 165 instituições, com 4.555 vagas, saltaram de R$ 6,2 milhões no primeiro semestre de 2024 para R$ 33,3 milhões no mesmo período de 2026, uma alta de 437%.