Em audiência pública no Senado Federal sobre cotas na residência médica, Jérzey Timóteo, representando o Ministério da Saúde, encerrou sua intervenção com um relato pessoal: “Fui um menino preto de pele sempre irritada, mas pouco inflamada, segundo os médicos, porque não ficava vermelha. Por isso passei anos sem diagnóstico de uma dermatite atópica”.
Não era culpa de um médico em particular, mas de uma ciência que não aprendeu a conviver com todos os tipos de corpos. Infelizmente, essa realidade segue a se fazer presente.
O relato ajuda a compreender por que preocupa o projeto que pretende proibir cotas nas seleções de residência médica. Seu argumento central é aparentemente simples: médicos beneficiados por ações afirmativas na graduação já teriam superado as desigualdades de origem e estariam aptos a disputar em igualdade de condições as vagas de residência. O problema é que essa igualdade simplesmente não existe.
A Demografia Médica no Brasil 2025, produzida pela USP em parceria com a Associação Médica Brasileira, mostra que apenas 9% dos estudantes de medicina ingressaram por alguma modalidade de reserva de vagas. As cotas étnico-raciais alcançavam 13.072 alunos, menos de 5% do total. Nas escolas privadas, onde estudam 77% dos futuros médicos, 1% das vagas é reservado para cotistas.







