O que é recuperação judicial?Entenda o processo que empresas podem solicitar para superar uma crise financeira. Nos últimos meses, grandes empresas brasileiras como Casas Bahia, Marabraz e Braskem enfrentaram dificuldades financeiras, levando a pedidos de recuperação judicial ou extrajudicial. Segundo Ricardo Knoepfelmacher, da RK Partners, a alta taxa de juros e problemas estruturais e setoriais são os principais desafios. Um quarto das empresas listadas na Bolsa não consegue pagar os juros de suas dívidas. A expectativa é de aumento nas reestruturações extrajudiciais, enquanto a recuperação judicial permanece uma solução cara e demorada.Foto: Felipe Rau/EstadãoRicardo KnoepfelmacherEconomista e sócio da RK PartnersNas últimas semanas, o Brasil viu grandes marcas, como Casas Bahia, Marabraz e Braskem, sucumbirem à escalada da dívida e serem obrigadas a entrar com pedidos de recuperação judicial ou extrajudicial para colocar a casa em ordem. Além da questão da taxa de juros elevada, que compromete a saúde financeira e encarece o custo da dívida, cada empresa tem a sua peculiaridade e problemas distintos, desde problemas internos de negócios a questões setoriais .Para Ricardo Knoepfelmacher (mais conhecido como Ricardo K.), sócio da RK Partners, responsável pelas principais reestruturações no Brasil, companhias muito alavancadas vão precisar reorganizar suas dívidas, seja por meio de recuperação extrajudicial, seja judicial. Segundo ele, hoje um quarto das empresas da Bolsa não consegue nem pagar o juro da dívida, quanto mais amortizar a dívida. Veja a seguir trechos da entrevista:Alguns setores estão vivendo um problema estrutural que é mais profundo do que só a taxa de juros alta. O varejo está passando por esse problema. É um problema que tem a ver com a entrada da Amazon, com a entrada do Mercado Livre, desse tipo de consumo que é comprado de uma outra forma (de forma online). Isso é uma questão estrutural mundial. Não é uma questão só brasileira e não tem a ver, necessariamente, só com a taxa de juros alta. Então essa é uma parte da resposta. PublicidadeHá o caso de outras grandes que estão chegando e que sofrem com um mix de problema setorial. Ou seja, às vezes você está no momento do ciclo. Por exemplo, o ciclo petroquímico. Esse é um momento de muita fragilidade, pois há uma questão do uso de nafta. Hoje, todo investimento que vem de chineses e de outros nas grandes petroquímicas novas e modernas do mundo funciona a gás natural, que é muito mais competitivo. Então há um problema estrutural de preço. Para você fazer um revamp e migrar de nafta para gás, é uma fortuna. É um capex de bilhões e bilhões. Então, tem um problema, sem dúvida. Leia tambémBraskem protocola pedido de recuperação extrajudicial, para renegociar R$ 56,5 bilhõesDívidas de grandes empresas que pediram recuperação nos últimos 2 anos beiram os R$ 180 bilhõesE onde entra a questão da taxa de juros?No Brasil, temos um problema muito grave, muito agudo, e que eu acho que as pessoas não tinham se dado conta. Porque uma coisa é você dizer assim: ‘Ah, a taxa de juros está baixando’. Gente, 14% de Selic ainda é alto pra caramba! Porque, com uma inflação de 4%, a taxa real de juros é altíssima. Qualquer empresa que tenha mais do que duas vezes e meia de dívida/Ebitda está muito alavancada. A não ser que esteja crescendo muito ou em um setor que está bombando, essa empresa vai se esborrachar, que é o que a gente está vendo agora.Há um estoque da dívida alto que as empresas não conseguem carregar no seu balanço. E os bancos sabem disso. Isso não é uma novidade para os bancos, tanto que todos eles montaram uma área de reestruturação para lidar com esses casos.PublicidadeOu seja, são três problemas afetando as empresas?O que a gente está vendo agora é esse fenômeno com essas três pernas: questões estruturais, que são as questões que envolvem setores, como é o caso que eu falei do varejo. Tem questões conjunturais, como, por exemplo, o agronegócio, que está vivendo um momento ruim do setor de commodities. Então, algumas commodities que pareciam que estavam com muita margem agora estão com pouca margem ou nenhuma margem, como é o caso de soja e milho. Então, o cara investiu demais e se lascou. E a terceira perna é essa da alta alavancagem, de você ter um estoque de dívida muito grande hoje na economia brasileira. Quando isso começou a se desenhar?Nós tivemos juros de 2,5% ao ano. A partir do momento em que a taxa de juros começou a subir, algumas empresas demoraram para implementar seus planos. Quando viram, o estoque da dívida estava muito alto. De um total de 380 empresas, um quarto não consegue nem pagar o juro da dívida, quanto mais amortizar a dívida. E isso enseja o quê? Elas têm de sentar com os credores e refazer a sua estrutura de capital.Hoje, os bancos, oligopolizados e muito concentrados como são, têm uma quantidade de Fidcs e de outros instrumentos de crédito que a gente vai começar a ver pipocar em tudo quanto é lugar: Fiagro, Fidc, um monte que não vai dar certo. Não tem como, porque está tendo inadimplência alta.PublicidadeSó que isso aí não é tão bem regulado. Então você não tem essa visibilidade. E isso às vezes está na mão de pessoas físicas. Você vê esses CRIs, que são esses certificados de operações estruturadas, são certificados privados que estão na mão do investidor pessoa física. O cara nem sabe que aquilo não vai ter performance. Sócio da RK Partners, Ricardo Knoepfelmacher Foto: Felipe Rau/EstadãoE o que se faz nessa situação? Uma coisa é você falar com um grande banco sobre uma dívida de R$ 1 bilhão. Quando você tem uma debênture que foi emitida e pulverizada, às vezes você não consegue nem reunir essas pessoas para tomar uma decisão. Acho que vai ficar um pouco mais difícil a gestão desses passivos que vão estourar. Mas a gente já está sentindo aqui que vai ter muito caso, porque o estoque da dívida segue muito elevado.Quais os setores mais afetados? Agro, varejo? Alguns setores de logística, portos, algumas empresas de infraestrutura que estão muito alavancadas. Fora a rodovia, que não tem problema, que é um fluxo de caixa contínuo, tem alguns que estão com o estoque de dívida muito grande. Tem alguns casos grandes no setor de infraestrutura que vão vir pela frente. Ainda não estão no radar, mas vão vir.PublicidadeVão entrar em recuperação judicial?Não sei se vai precisar de recuperação judicial. A recuperação judicial funciona quando você não consegue uma renegociação bilateral de sucesso. Ou porque os credores são muito heterogêneos, ou seja, quando você tem debenturista, banco, fornecedores, credores de diferentes tamanhos e de diferentes garantias, e você não consegue um alinhamento entre eles, aí eu acho que a recuperação judicial coloca todo mundo na mesma página e permite uma negociação melhor.Mas casos grandes às vezes não têm isso. Às vezes são poucos credores e aí é mais fácil você fazer uma grande reestruturação sem precisar entrar em RJ. Você está vendo o aumento no número de REs, que são as reestruturações extrajudiciais. Você começa a ter credores mais concentrados, que entendem que é melhor ter uma RE do que deixar a empresa cair numa RJ. Mas há casos em que começa como uma extrajudicial e, ao não ser bem-sucedida, ela naturalmente cai numa RJ.Por que isso ocorre?Porque, na RE, às vezes, você tem a esperança de que vai conseguir o quórum mínimo. A RE tem essa beleza: você chega para o juiz e diz: ‘Olha, em 90 dias, vou ter uma solução definitiva’. Só que, às vezes, ela não vem e aí a empresa vai ter de pedir uma recuperação judicial.PublicidadeQue foi o caso da Casas Bahia?Sim. E aí vai para uma assembleia normal, vai para o processo normal, mais longo, mais complicado.Em relação aos juros, ainda vamos demorar para ter um juro nominal e real baixo adequado. Qual seria o patamar para dar mais conforto às empresas?Eu acho que é um juro real abaixo de 5%. Acima disso é o que a gente está vendo hoje.O que a gente pode esperar para os próximos meses em relação a RE e RJ?RJ é uma solução cara e longa, em geral melhor para empresas médias e grandes. Mas agora a gente acha que tem um espaço muito grande para aumentar as extrajudiciais, que são mais leves, mais rápidas e menos caras que as RJs. Acredito que vai aumentar muito o número de REs, mas o número de RJs vai continuar também muito alto. Talvez mais um ano, um ano e meio, até a taxa de juros baixar bem mais.PublicidadeEssas empresas que entrarem em RE ou RJ têm condição de sair bem?Estamos tentando levantar quantas empresas entram em RJ, quantas tiveram uma solução positiva e quantas não sobreviveram ou estão num momento pré-falimentar. Acho que teve uma grande evolução quando o Brasil saiu de uma legislação da Lei de Concordatas e Falências para a Lei da Recuperação Judicial. Mas o que não pode acontecer é a recuperação judicial virar um instrumento simplesmente protelatório e não de solução para os problemas da companhia.Vale ler tambémA inteligência artificial seria a solução ou a dissolução?Caixa já investiu R$ 2,6 bi em tecnologia em 2026Empresas controladas pela XP vão se fundir
Entrevista | ‘Qualquer empresa com dívida alta vai se esborrachar’, diz o reestruturador Ricardo K.
Especialista afirma que atualmente um quarto de um total de 380 companhias não consegue nem pagar o juro da dívida















