O processo é resultado da combinação de três pressões: os custos bilionários do desastre geológico em Maceió, um período longo de margens mais baixas na indústria petroquímica global e o alto nível de endividamento. A recuperação extrajudicial é um mecanismo que permite renegociar dívidas com credores fora de uma recuperação judicial tradicional, com posterior homologação da Justiça. Esse cenário passou a afetar diretamente a capacidade da companhia de gerar caixa e manter o pagamento regular de suas obrigações. À medida que as despesas aumentavam e os resultados operacionais se enfraqueciam, o equilíbrio financeiro da empresa se deteriorava. A seguir, o g1 explica os fatores que levaram a Braskem, maior petroquímica da América Latina, a enfrentar uma das crises mais profundas de sua história. Veja os vídeos que estão em alta no g1 O desastre em Maceió A exploração de sal-gema, tipo de sal extraído do subsolo e usado pela indústria química, na capital de Alagoas, começou na década de 1970. A atividade era conduzida pela então Salgema Indústrias Químicas S.A., empresa que mais tarde daria origem à Braskem. As primeiras grandes rachaduras foram registradas em fevereiro de 2018, no bairro do Pinheiro. No mês seguinte, um tremor de terra agravou as fissuras e levou ao início da desocupação da região.Em maio de 2019, o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) concluiu que o fenômeno estava relacionado à mineração de sal-gema feita pela companhia. O episódio provocou um dos maiores deslocamentos urbanos já registrados no país. Mais de 14 mil imóveis foram desocupados e cerca de 60 mil pessoas foram afetadas. Bairro do Mutange, em Maceió, antes de depois da demolição dos imóveis desocupados por causa da mineração — Foto: g1 AL Diante das consequências do desastre, a Braskem firmou acordos com autoridades locais para compensar e reparar os danos. Paralelamente ao pagamento das indenizações, a petroquímica criou um programa de compensação financeira e apoio à realocação de moradores das áreas afetadas. A Braskem já desembolsou mais de R$ 4,2 bilhões em indenizações, auxílios temporários e apoio à realocação de moradores e comerciantes afetados pelo afundamento do solo em Maceió. Apesar disso, a empresa ainda mantém R$ 3,24 bilhões reservados em seu balanço para cobrir custos futuros relacionados ao desastre e às medidas de reparação. Crise no setor petroquímico Ao mesmo tempo em que arcava com os custos do desastre geológico em Maceió, a Braskem passou a enfrentar um cenário mais desfavorável no mercado internacional. Isso porque, nos últimos anos, a indústria petroquímica entrou em um período de produção elevada. 🔎 Parte desse movimento está ligada à rápida expansão industrial na China. Segundo relatório da consultoria ICIS (Independent Commodity Intelligence Services), o país adicionou mais de 18 milhões de toneladas por ano em nova capacidade produtiva em 2024, após aumentos recordes registrados em 2022 e 2023. Com mais produtos disponíveis no mercado, os preços passaram a cair. Ao mesmo tempo, o consumo perdeu ritmo em várias regiões do mundo, já que a inflação elevada e os juros altos reduziram a demanda por resinas e outros derivados químicos. Braskem, petroquímica que fazia exploração de sal-gema em Maceió, foi apontada como causadora das rachaduras em bairros de Maceió — Foto: Divulgação/Braskem Esse desequilíbrio entre produção e consumo afetou a rentabilidade das empresas do setor e tende a persistir nos próximos anos. A agência de classificação de risco Fitch projeta que os spreads petroquímicos — diferença entre o preço do produto final e o custo da matéria-prima — devem permanecer baixos pelo menos até 2028. Para a Braskem, esse cenário aparece nos resultados mais recentes: o EBITDA recorrente da companhia — número que mede a geração de caixa da empresa — somou US$ 557 milhões em 2025, queda de 49% em relação ao ano anterior. Dívida elevada e pressão financeira Os custos relacionados ao desastre em Maceió, somados ao enfraquecimento do setor petroquímico, passaram a afetar de forma mais direta a situação financeira da Braskem. No fim do ano passado, o endividamento da empresa — já descontado o dinheiro em caixa —, somava US$ 7,5 bilhões. A relação entre a dívida e a geração de caixa atingiu 14,7 vezes. 🔎 Esse indicador é usado pelo mercado para avaliar a capacidade de pagamento de uma companhia. De maneira geral, quanto maior esse número, maior tende a ser a preocupação de investidores e credores sobre a capacidade da empresa de cumprir seus compromissos financeiros. As dificuldades e desconfiança apareceram no preço das ações. Na B3, os papéis da Braskem acumulam queda de cerca de 82% desde o início da crise em Maceió, passando de R$ 42,05 em fevereiro de 2018 para R$ 7,51 em 18 de junho de 2026. Os efeitos da crise também atingiram as operações fora do Brasil. A Braskem Idesa, subsidiária da companhia no México, deixou de pagar juros de títulos com vencimento em 2029 e 2032 — situação que caracteriza um evento de calote (ou "default", no jargão econômico). No fim de março, a empresa iniciou negociações com credores para reorganizar sua estrutura de capital por meio de medidas judiciais semelhantes ao processo conhecido como Chapter 11 nos Estados Unidos. Mudança no controle e início da reestruturação A operação envolveu a transferência de cerca de 50,1% das ações com direito a voto da petroquímica e estava ligada a aproximadamente R$ 20 bilhões em dívidas da holding garantidas por ações da própria companhia. ➡️ A nova controladora assumiu as negociações com bancos e outros credores e começou a elaborar um plano para reorganizar as finanças da empresa, que acumulava uma dívida próxima de R$ 60 bilhões, incluindo os passivos da subsidiária mexicana Braskem Idesa. A proposta apresentada aos credores prevê mais prazo para o pagamento das dívidas, redução dos juros e períodos maiores de carência. O plano, porém, não prevê novos aportes de recursos dos acionistas nem a troca de parte das dívidas por participação na companhia. Impasse com credores e recuperação extrajudicial As negociações envolviam detentores de títulos de dívida e bancos, mas ainda não havia acordo. Os credores haviam rejeitado uma proposta da companhia que previa carência de cinco anos para o pagamento do principal e de dois anos e meio para os juros. Segundo a Bloomberg, parte dos credores também pressionava a Petrobras, uma das acionistas controladoras da Braskem, a fazer um novo aporte de recursos na companhia. A estatal, porém, resistia à ideia, entre outros motivos, pelo risco de ampliar sua participação na petroquímica e ter de consolidar a dívida da empresa em seu próprio balanço. ⚖️ A estrutura em discussão para a recuperação extrajudicial previa um período de suspensão de cobranças de 90 dias, durante o qual a empresa e os credores poderiam negociar um plano mais amplo de reestruturação. Além das dívidas relacionadas às operações no Brasil, nos EUA e na Europa, a Braskem também vinha negociando a reestruturação de US$ 2 bilhões em dívidas da Braskem Idesa, sua subsidiária no México. Na semana passada, a Braskem Idesa entrou com um pedido de Chapter 11 nos EUA para renegociar suas dívidas, após fechar um acordo com credores e acionistas. O processo faz parte da estratégia de reestruturação financeira do grupo e ocorreu em cronograma próximo ao pedido de recuperação extrajudicial anunciado no Brasil. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, a Braskem pode levar de três a cinco anos para superar os problemas financeiros herdados da gestão anterior. Braskem abre inscrições para programa de estágio — Foto: Divulgação
Crise da Braskem: entenda o caminho até a recuperação extrajudicial | G1
O g1 explica os fatores que levaram a Braskem, maior petroquímica da América Latina, a enfrentar uma das crises mais profundas de sua história.












