Dois meses após conseguir um novo sócio para tocar sua reestruturação, a gigante da indústria petroquímica Braskem tomou medidas judiciais e extrajudiciais para se proteger contra a cobrança antecipada de dívidas por parte de seus credores, informou a companhia ao mercado nesta quinta-feira. De um lado, a Braskem e parte das empresas controladas por ela iniciaram processo de mediação perante a Câmara Wind de Mediação. De outro, as empresas protocolaram um pedido de Tutela de Urgência Cautelar perante a 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), pedindo a suspensão de cobranças. “As medidas envolvem apenas os credores financeiros”, frisa o fato relevante divulgado pela Braskem. Isso significa que o movimento da companhia “não abrange quaisquer obrigações (...) com seus fornecedores, clientes e demais stakeholders, as quais permanecem vigentes e seguem sendo cumpridas normalmente, nos termos dos respectivos contratos”. Quando uma empresa em dificuldades entra com um pedido de recuperação judicial, por exemplo, e recebe aval do Judiciário, todas as cobranças contra ela são suspensas, inclusive com fornecedores e empregados. Recuperação extrajudicial O caminho que deverá ser seguido pela Braskem é um processo de recuperação extrajudicial, assim como fez recentemente a fabricante de açúcar e etanol e distribuidora de combustíveis Raízen. As negociações com os credores começaram no início do mês e envolvem R$ 50 bilhões em dívidas, segundo o jornal Valor. A empresa corrida contra o tempo, para evitar o vencimento de parte da dívida em julho, informou a agência Bloomberg, citando pessoas familiarizadas com o assunto que pediram anonimato. Como um acordo ainda não se tornou viável, a proteção contra os credores financeiros pedida agora pela Braskem seria um passo para o pedido de recuperação extrajudicial, informou o Valor. De acordo com o fato relevante divulgado nesta quinta-feira, as medidas têm “o objetivo de preservar um ambiente estável para a continuidade das negociações em andamento exclusivamente com os referidos credores em busca de uma solução consensual, estruturante e ordenada para sua estrutura de capital, alinhada com a posição de liquidez da companhia e as condições da indústria petroquímica global”. Prejuízo foi de R$ 11 bi e dívida de R$ 44 bi A Braskem — que tem a Petrobras como sócia minoritária, e era controlada pela Novonor, nome assumido pelo conglomerado da construtora Odebrecht após os problemas financeiros decorrentes da Operação Lava-Jato — fechou 2025 com prejuízo líquido de R$ 11 bilhões em 2025 e patrimônio líquido negativo de R$ 16,5 bilhões. Em abril, a Novonor anunciou um acordo para vender sua participação na gigante da indústria petroquímica Braskem para a gestora IG4 Capital, especializada na aquisição de empresas em dificuldades. No balanço financeiro do primeiro trimestre, a dívida líquida da Braskem estava em US$ 8,483 bilhões, o equivalente a R$ 44 bilhões, ou 16,8 vezes a geração de caixa recorrente por ano. Crise e novo controlador Além do endividamento excessivo, a companhia enfrenta outros problemas. A novela em torno do controle foi resolvida com a chegada da IG4 Capital, que recebeu aval da sócia Petrobras e foi bem recebida pelo mercado. Veja imagens da área afetada por mineração em Maceió 1 de 5 Vista aérea do terreno afundado no bairro Mutange, em Maceió, Alagoas. — Foto: Robson Barbosa / AFP 2 de 5 A área afetada fica perto de uma mina de sal-gema e já afundou cerca de dois metros, forçando a evacuação de 55 mil moradores e de um hospital. — Foto: Robson Barbosa / AFP X de 5 Publicidade 5 fotos 3 de 5 Risco iminente de colapso de uma das minas da Braskem no bairro Mutange, em Maceió — Foto: Robson Barbosa / AFP 4 de 5 Mutange foi um dos bairros de Maceió desocupados por causa do afundamento do solo causado pela mineração — Foto: Robson Barbosa / AFP X de 5 Publicidade 5 de 5 A extração de sal-gema ocorre desde a década de 1970 em Maceió — Foto: Robson Barbosa / AFP Mina da Braskem tem risco iminente de colapso; 55 mil moradores e um hospital foram evacuados O calvário inclui ainda gastos e baixas contábeis associados ao desastre ambiental em antigas minas em Maceió (AL) e a falta de competitividade num ciclo de baixa da indústria petroquímica global. Cenário mudou com guerra no Oriente Médio Esse último ponto colocava em xeque a competividade da indústria petroquímica nacional, mas os efeitos da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã — que fizeram as cotações do petróleo disparar — poderão ser positivos para o setor. Com refinarias do Oriente Médio atingidas e unidades da Ásia obrigada a lidar com uma matéria-prima mais cara, a petroquímica ficou mais competitiva em toda a região das Américas. Novo CEO da Braskem, Helcio Tokeshi — sócio da IG4 Capital que comandava CLI, operadora de terminais portuários controlada pela gestora — disse, em entrevista ao jornal Valor no início do mês, que a reestruturação “não vai ser fácil e haverá turbulências, mas o momento ajuda”, referindo-se ao cenário resultante da guerra no Oriente Médio.