A Braskem, uma das maiores petroquímicas do mundo, entrou nesta segunda-feira com pedido de recuperação extrajudicial, ganhando mais 90 dias para negociar com credores financeiros a renegociação de US$ 10,9 bilhões em dívidas. A Braskem é a maior petroquímica da América Latina e uma das principais fabricantes de resinas do mundo. A companhia transforma matérias-primas derivadas do petróleo e do gás natural em produtos químicos e plásticos usados por diversas indústrias, da construção civil à fabricação de embalagens, automóveis, eletrodomésticos e itens hospitalares. Quais produtos a Braskem produz e para que servem? A Braskem está na base de uma extensa cadeia produtiva que abastece fábricas no Brasil e no exterior. A empresa produz os chamados insumos petroquímicos básicos, como eteno e propeno, que são obtidos a partir de matérias-primas derivadas do petróleo e do gás natural. A companhia também produz soda cáustica, obtida por meio da eletrólise de uma solução de sal e água. Esses produtos são utilizados em diferentes etapas da cadeia petroquímica e dão origem a insumos e resinas utilizados pela indústria e que também são fabricadas pela Braskem. Entre eles estão: polietileno: usado na fabricação de sacolas, embalagens, brinquedos, tubos e utensílios domésticos;polipropileno: utilizado em peças automotivas, eletrodomésticos, móveis e embalagens;policloreto de vinila (PVC): empregado na fabricação de tubos, conexões, pisos, cabos elétricos e esquadrias. Qual é a relação da Braskem com a Petrobras? A Petrobras é uma das principais acionistas da Braskem. Após mudanças recentes na estrutura societária, a estatal passou a deter cerca de 47% das ações ordinárias (ON, com direito a voto) da petroquímica. Além disso, participa da gestão da empresa. Em paralelo, a Petrobras é uma importante fornecedora de matérias-primas para a Braskem. A estatal vende à petroquímica derivados de petróleo e gás natural que servem de base para a produção de resinas e produtos químicos. Petrobras e Braskem também têm planos para ampliar essa integração. Em 2025, as empresas anunciaram investimentos de R$ 4,3 bilhões na ampliação da unidade de polietileno da Braskem em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. O objetivo é integrar a operação aos principais ativos da Petrobras no estado, como a Refinaria Duque de Caxias (Reduc), a Rota 3, usada para trazer ao Rio o gás produzido nos campos do pré-sal, e o antigo Comperj, em Itaboraí. O que é sal-gema e por que sua exploração levou terrenos em Alagoas a afundar? A Braskem explorou sal-gema em áreas urbanas de Maceió, em Alagoas, por décadas. Essa substância é o cloreto de sódio (o mesmo componente do sal de cozinha), mas é extraído de minas subterrâneas e jazidas terrestres, não é encontrado no mar. A atividade em minas subterrâneas causou a instabilidade geológica no subsolo, levando a afundamentos do terreno e ameaçando a população que residia na região. Mais de 60 mil pessoas precisaram deixar suas casas, e a empresa teve de realizar programas de indenização e compensação. A Braskem reconheceu sua responsabilidade pelos danos e firmou acordos bilionários de reparação. O gasto relacionado ao afundamento do solo em Maceió já chega a R$ 4,25 bilhões apenas no Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação. O valor soma indenizações e auxílios financeiros pagos desde 2019. Até julho de 2026, 19.132 indenizações já haviam sido pagas. Ainda existem, no entanto, discussões judiciais e investigações relacionadas ao caso. Por que a Braskem entrou em crise financeira? A crise financeira está ligada a uma combinação de fatores. Entre eles estão os impactos da Operação Lava-Jato sobre a Odebrecht, então principal controladora da Braskem, os gastos bilionários relacionados ao caso de Maceió, e o aumento da capacidade de produção de polietileno e polipropileno, especialmente na China, que ampliou a oferta global e pressionou os preços. A isso se somou um período prolongado de margens baixas na indústria petroquímica. Com a queda da rentabilidade, a companhia passou a gerar menos caixa, enquanto continuou tendo de arcar com juros, investimentos e outros compromissos. O resultado foi o aumento da pressão sobre a estrutura financeira da empresa. Para reforçar o caixa, a Braskem também recorreu a crédito, ao mesmo tempo em que reduziu os investimentos. Em 2025, foram cerca de R$ 2,36 bilhões em investimentos, principalmente em manutenção de unidades, paradas programadas, equipamentos e projetos operacionais. Para 2026, a previsão foi reduzida para US$ 465 milhões. Mais recentemente, a situação financeira também foi afetada pelos problemas da Braskem Idesa, no México, joint venture da Braskem com o Grupo Idesa. A empresa entrou com pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos para reestruturar suas dívidas.