O que é recuperação judicial?Entenda o processo que empresas podem solicitar para superar uma crise financeira. Gerando resumoFoto: ESPM/DivulgaçãoRicardo PastoreCoordenador do Retail Studio e do Retail Lab da ESPMA estratégia ideal de gestão financeira de uma empresa deve contemplar não somente ações de prevenção à necessidade de um pedido de recuperação judicial, mas a inclusão de um planejamento que guie a organização sobre como passar pelo processo, caso ele seja inevitável. Isso, sem comprometer severamente áreas fundamentais para o funcionamento das atividades durante a reestruturação. A perspectiva é defendida pelo economista Ricardo Pastore, coordenador do Retail Studio e do Retail Lab, núcleos de estudos em varejo da ESPM. Em entrevista ao Estadão, o especialista comentou sobre o instrumento de reestruturação legal que tem sido utilizado de forma recorrente por grandes varejistas no Brasil. Os casos mais recentes ocorreram no último final de semana, com Casas Bahia e Lojas Marabraz.Para ele, a recuperação é um instrumento de gestão possível em casos críticos, mas precisa ter base em um plano antecipado. “Tudo isso faz parte do planejamento da recuperação judicial: primeiro o ‘sim, vamos entrar (em recuperação)’, segundo o ‘como vamos administrá-la’, e terceiro o ‘como vamos sair (dela)’. Porque um pedido de recuperação judicial bem planejado é a certeza de sair dessa recuperação. No entanto, com um pedido de recuperação judicial às pressas, na situação de emergência ou no “salve-se quem puder”, dificilmente a empresa vai conseguir sair dela.”PublicidadeO sucesso da recuperação está em planejá-la mesmo quando não se precisa dela, diz. “Não (se deve) esperar a crise financeira para discutir a estratégia da empresa. Uma boa governança precisa acompanhar continuamente indicadores financeiros e operacionais, mas também fazer uma pergunta: qual é o modelo de crescimento da empresa daqui para frente? No varejo, isso envolve avaliar permanentemente a proposta de valor para o cliente, o posicionamento de lojas e canais, a produtividade da operação e a criação de novas fontes de receita.”A seguir, leia os principais trechos da entrevista:Como uma empresa lida com a possibilidade de usar o instrumento da recuperação judicial?A recuperação judicial é um processo crítico e limite, mas está dentro da lei e é possível para as melhores empresas do País e do mundo. (Porém) não é algo corriqueiro. Ela dá sinais com muitos meses de antecedência. E é um recurso da gestão. Ou seja, assim como os gestores são capacitados ao longo de suas carreiras, com MBAs, consultorias, e há esse acúmulo de conhecimento para a expansão da empresa e para outros diversos objetivos, o mesmo vale para períodos de crise. O gestor tem de ter essa habilidade. A empresa tem que ter, no seu quadro, pessoas que conheçam tanto sobre momento do crescimento, quanto sobre momentos retração e reestruturação. Temos visto que houve uma ‘juniorização’ dos quadros executivos, (também) há um turnover (rotatividade) muito grande. Então, a empresa vai ficando vulnerável e olhando mais para o curto prazo, tentando cada vez mais ações imediatas. Mesmo assim, ela conta com recursos externos, principalmente as consultorias. Esse traçado de cenário deve ser um exercício constante. Tanto em cenários otimistas, quanto em pessimistas, a empresa precisa saber se, ao zarpar no porto, ela vai navegar o tempo todo no mar calmo. Mas, se o tempo mudar, e ela enfrentar um mar de dificuldades, será que o navio vai resistir? E a tripulação está preparada pra isso?E qual a leitura desse cenário hoje no varejo?O cenário global está bastante agitado, com muitas mudanças consecutivas. Isso já se repete ao longo de séculos. São mudanças patamares, de paradigmas tecnológicos. A cada salto tecnológico, vemos uma série de empresas ficando pelo caminho e outras surgindo. O setor específico do varejo, que vende eletroeletrônicos e móveis, mudou muito. Foi um setor muito impactado pelas novas tecnologias. A venda pela internet cresceu. Estamos vendo os marketplaces, e-commerces nativos digitais prosperando, enquanto varejos tradicionais estão sofrendo. Nessa lista de recuperações judiciais, não vemos jovens empresas, vemos as tradicionais.Por qual motivo?Muitas empresas trabalharam com alavancagem financeira e correram risco em troca de crescimento. Quando falamos de meritocracia, (ela é) uma fórmula que, muitas vezes, coloca as empresas em risco, porque os executivos se sentem motivados a atingir o limite, a correr riscos em troca de bônus graúdos. No entanto, muitas vezes, esse efeito mais de curto prazo se mostra perverso no longo prazo. Publicidade'A principal prática de governança é não esperar a crise financeira para discutir a estratégia da empresa', diz Pastore Foto: ESPM/DivulgaçãoQual o planejamento para uma recuperação já na crise?Essa situação de crise é uma pauta que, às vezes, está esquecida na lista de prioridades das empresas. Mas, de repente, ela sobe. Então, uma vez que é um recurso da gestão, a recuperação judicial deve ser colocada em pauta com muitos meses de antecedência. As empresas bem administradas sabem que vão utilizar o recurso da recuperação judicial com meses de antecedência. E elas trabalham pra isso. Vão reduzindo despesas e quadro de pessoal, oxigenando o seu estoque, fazendo caixa e renovando seu estoque de forma prudente, para que, quando haja a colocação da recuperação judicial, a empresa não fique sem mercadoria. Ela tem de ter alguns meses de cobertura de estoque: dois ou três meses, dependendo do ramo, para se reorganizar, chamar os fornecedores de volta e apresentar um plano de recuperação. Tudo isso faz parte do planejamento da recuperação judicial: primeiro o “sim, vamos entrar (em recuperação)”, segundo o “como vamos administrá-la”, e terceiro o “como vamos sair (dela)”. Porque um pedido de recuperação judicial bem planejado é a certeza de sair dessa recuperação judicial. No entanto, com um pedido de recuperação judicial às pressas, na situação de emergência ou no “salve-se quem puder”, dificilmente a empresa vai conseguir sair dela.E qual a principal prática de governança que pode evitar ou prevenir que uma crise financeira em uma empresa de varejo vire recuperação judicial? A principal prática de governança é não esperar a crise financeira para discutir a estratégia da empresa. Uma boa governança precisa acompanhar continuamente indicadores financeiros e operacionais, mas também fazer uma pergunta: qual é o modelo de crescimento da empresa daqui para frente? No varejo, isso envolve avaliar permanentemente a proposta de valor para o cliente, o posicionamento de lojas e canais, a experiência de compra, a produtividade da operação, o uso de dados e inteligência artificial e a criação de novas fontes de receita. Reestruturar não pode significar apenas reduzir custos ou renegociar dívidas. Essas medidas podem ser necessárias, mas precisam vir acompanhadas de uma transformação estratégica. O varejo mudou. Portanto, simplesmente voltar a fazer melhor aquilo que funcionava no passado pode não ser suficiente para construir o futuro. Leia também‘Governança preventiva’ não elimina o risco, mas pode frear novas RJs de varejistas, dizem analistasOnda de recuperações judiciais e extrajudiciais expõe ‘teste de governança’ às empresasEm que ponto esse movimento ajuda?Essa visão pode ajudar a prevenir crises mais profundas e, consequentemente, reduzir a necessidade de recuperação judicial. (Ajuda a) identificar antecipadamente os sinais de deterioração e, ao mesmo tempo, construir novas alternativas de crescimento antes que a situação financeira se torne crítica. Vale ler tambémBrasil é uma potência agroambiental à espera de uma visão de paísO que o poder de escolha do consumidor revela sobre a crise da Casas BahiaVenda da Rumo entra na fase final com Grupo México, Cofco e Bunge no páreoPublicidade
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Diante de onda de RJs em varejistas, Ricardo Pastore, coordenador de núcleos de estudos em varejo da instituição, recomenda não esperar uma crise financeira para discutir plano de reestruturação







