"Recuperação da recuperação" cresce no Brasil à medida que empresas recorrem à Justiça após tentativas frustradas de reestruturação extrajudicial Divulgação — Foto: Divulgação O pedido de recuperação judicial apresentado pelo St Marche poucos meses após a homologação de seu plano de recuperação extrajudicial reforça um movimento que começa a ganhar espaço no ambiente empresarial brasileiro: empresas que, mesmo após renegociarem suas dívidas fora do modelo tradicional de recuperação judicial, voltam ao Judiciário em busca de uma solução mais ampla para preservar suas operações. Para Claudio Montoro, advogado especialista em recuperação judicial e professor do Insper, o caso ilustra uma tendência que pode se tornar cada vez mais frequente diante do atual cenário econômico. "Estamos observando o crescimento daquilo que podemos chamar de 'recuperação da recuperação'. A empresa tenta inicialmente uma solução menos invasiva, como a recuperação extrajudicial, mas percebe que a crise é mais profunda do que imaginava e acaba recorrendo à recuperação judicial para ampliar o alcance da reestruturação", afirma. O St Marche ingressou com pedido de recuperação extrajudicial em abril de 2025 para renegociar cerca de R$ 530 milhões em passivos financeiros. Menos de seis meses após a homologação do plano — ainda pendente de recursos —, a companhia optou por ingressar com recuperação judicial, buscando reorganizar sua estrutura financeira de forma mais abrangente. Segundo Montoro, essa mudança de estratégia nem sempre significa que a recuperação extrajudicial foi uma escolha equivocada. "Em muitos casos, a empresa toma a decisão correta com base nas informações disponíveis naquele momento. O problema é que fatores externos, como juros elevados, retração do consumo e piora das condições de crédito, acabam aprofundando a crise e exigindo instrumentos mais robustos de reestruturação", explica. O especialista destaca que o ambiente econômico dos últimos anos contribuiu diretamente para esse cenário. Empresas que captaram recursos durante o período de juros historicamente baixos passaram a enfrentar dificuldades quando o custo do crédito aumentou significativamente, reduzindo a capacidade de rolar dívidas e pressionando o caixa. "O ciclo de juros baixos estimulou muitas empresas a aumentar sua alavancagem financeira. Quando esse cenário mudou, diversas companhias passaram a enfrentar um custo de capital incompatível com sua geração de caixa, tornando inevitável a busca por mecanismos de reorganização", afirma. Além dos desafios financeiros, o especialista alerta para outro efeito importante: o desgaste da confiança do mercado. "Cada novo processo de reestruturação aumenta o desafio de convencer credores, fornecedores e investidores de que a empresa conseguirá cumprir o plano apresentado. A credibilidade passa a ser um dos principais ativos da companhia durante todo o processo de recuperação", observa. No caso do St Marche, um dos caminhos em discussão envolve a venda do controle da empresa como forma de atrair novos investimentos e viabilizar a continuidade das operações. "Em algumas situações, a entrada de um novo investidor deixa de ser apenas uma oportunidade de negócio e passa a representar uma condição para a própria sobrevivência da empresa. O aporte de capital pode restaurar a confiança do mercado e criar condições para uma negociação mais equilibrada com os credores", avalia Montoro. Para o advogado, o aumento de casos semelhantes indica que o sistema brasileiro de reestruturação empresarial deverá lidar, cada vez mais, com crises que exigem soluções integradas, envolvendo reorganização financeira, revisão operacional e mudanças na estrutura societária. "O instrumento jurídico é apenas parte da solução. A recuperação efetiva depende de uma empresa economicamente viável, de uma estratégia consistente e da capacidade de reconstruir a confiança do mercado. Sem esses elementos, qualquer renegociação tende a ser apenas um alívio temporário", conclui.
Recuperação judicial do St Marche evidencia nova tendência entre empresas em crise, aponta especialista
"Recuperação da recuperação" cresce no Brasil à medida que empresas recorrem à Justiça após tentativas frustradas de reestruturação extrajudicial







