Um dos aspectos mais importantes das pesquisas recentes é justamente a estabilidade dos números. Mesmo diante de acontecimentos potencialmente capazes de produzir impacto eleitoral, como o caso envolvendo Lulinha e o envolvimento de Flávio Bolsonaro no caso Master, os percentuais permanecem praticamente inalterados em relação às rodadas anteriores. Isso recomenda cautela na interpretação de fatos políticos de grande repercussão. Nem todo acontecimento que domina o debate público produz efeitos imediatos sobre as intenções de voto. O eleitor pode acompanhar esses episódios sem alterar sua preferência eleitoral. Lula e Flávio Bolsonaro, até agora, não atingiram os patamares esperados por alguns setores da oposição. Mas é preciso considerar que o horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE) ainda não começou. Será com a entrada efetiva da propaganda eleitoral que os candidatos poderão apresentar propostas, construir narrativas e disputar o eleitorado para além da exposição espontânea nas pesquisas. O cenário permanece aberto. Caiado não deve ser descartado Não seria prudente descartar Caiado. Pelo contrário. O mercado pode não demonstrar a mesma confiança em Flávio Bolsonaro, enquanto Caiado e Kassab podem oferecer uma alternativa considerada mais previsível e confiável por setores econômicos e políticos. Caiado possui aprovação muito alta em Goiás, tem no tema da segurança pública uma de suas principais marcas e conta com uma estrutura política que pode ser potencializada pela articulação do PSD. Kassab, por sua vez, dispõe de enorme capilaridade municipal, com o partido controlando um número expressivo de prefeituras. Mas há uma pergunta fundamental: seria possível transferir a boa aprovação de Caiado em Goiás para o restante do país? Essa é uma das principais incógnitas de sua candidatura. Uma coisa é ter uma avaliação extremamente positiva como governador em seu estado; outra é transformar essa imagem em reconhecimento, confiança e intenção de voto em diferentes regiões do país. O desafio de Caiado será justamente nacionalizar sua imagem. Para isso, precisará transformar a experiência de governo, especialmente sua agenda de segurança pública, em uma narrativa nacional capaz de ocupar espaço entre Lula e o bolsonarismo. Minas Gerais pode ser um problema para Lula? Minas Gerais também pode se transformar em um problema sério para Lula. Zema está articulado com prefeitos e possui uma estrutura política importante no estado. Há, ainda, uma questão política que merece atenção: Lula nomeou vários ministros do Nordeste, mas praticamente manteve os petistas de Minas Gerais fora do núcleo ministerial do governo. A exceção mais recente foi a oferta do Ministério dos Direitos Humanos ao PT. A ausência de maior representação mineira pode ter consequências políticas, especialmente em um estado estratégico para qualquer candidatura presidencial. Mas há um personagem que não pode ser ignorado nessa equação: Alexandre Silveira. Mineiro, ex-deputado federal e ex-senador, Silveira é um ministro de confiança de Lula e ocupa uma pasta estratégica, o Ministério de Minas e Energia, além de possuir forte trânsito político e conhecimento das redes políticas do estado. Lula dispõe, em Minas, de um ministro de sua confiança, com forte trânsito político e conhecimento do estado. Mas até que ponto a força institucional e a proximidade com o presidente se convertem em capital eleitoral? E, em que medida a ausência de um petista interfere nas eleições para governador, já que o PT não conseguiu construir um nome competitivo para a disputa no estado? Isso também permite um contraponto interessante com Caiado: a aprovação de um governador em seu próprio estado é um tipo de ativo político; a proximidade com o presidente e a ocupação de um ministério estratégico é outro. A questão eleitoral é saber qual desses capitais é mais transferível para uma disputa presidencial. Em outras palavras, tanto Caiado quanto Silveira representam formas distintas de capital político. O primeiro precisa transformar uma aprovação estadual excepcional em uma candidatura nacional. O segundo precisa saber se sua proximidade com o governo federal e sua presença em uma área estratégica conseguem produzir capacidade de mobilização eleitoral em Minas. Ceará: o fator Ciro No Ceará, a situação também merece ser observada com cuidado. O governo Lula quase perdeu a Prefeitura de Fortaleza, o que demonstra que o lulismo não possui ali a mesma tranquilidade de outros momentos. Ciro Gomes continua sendo um personagem importante. Caso seja candidato ao governo do Ceará, poderá construir uma candidatura competitiva e, ao mesmo tempo, fazer uma campanha de forte contraposição a Lula. O Ceará pode deixar de ser um território eleitoralmente confortável para o presidente. Bahia: segurança pública como ponto de tensão Na Bahia, o problema é ainda mais complexo. O estado enfrenta uma situação gravíssima de segurança pública, tema que pode produzir desgaste para o campo governista. Esse problema, entretanto, vem sendo parcialmente amortizado pela articulação política construída com o senador Otto Alencar e pelas redes políticas no interior do estado. Será preciso observar até que ponto essa estrutura consegue neutralizar o impacto eleitoral da segurança. São Paulo continua sendo um desafio São Paulo sempre foi um problema para Lula, pelo tamanho do eleitorado e pela dificuldade histórica do PT em transformar sua força nacional em maioria no estado. Agora, há ainda um elemento adicional: um candidato bolsonarista forte à reeleição de governador, com capacidade de mobilizar a estrutura política da direita e disputar diretamente esse eleitorado. Flávio Bolsonaro e os limites da mobilização Do lado de Flávio Bolsonaro, também há sinais que merecem ser considerados. O início de sua campanha, em Copacabana, foi um fracasso de público. Mais significativo ainda foi o fato de que nem mesmo parte expressiva dos apoiadores políticos esperados compareceu ao ato. É claro que um evento isolado não determina uma eleição, mas ele pode ser um indicador da dificuldade de transformar a força do sobrenome Bolsonaro em mobilização eleitoral própria. Além disso, a estabilidade das pesquisas recentes é relevante também para a avaliação de Flávio. Apesar da repercussão do caso Master e de seu envolvimento no episódio, não houve, até o momento, alteração significativa de seus números. Isso pode indicar resistência de sua base eleitoral, mas também recomenda observar os efeitos acumulados, e não imediatos, desses acontecimentos. O horário eleitoral pode mudar o jogo? Por isso, ainda não está fechado o diagnóstico sobre a oposição. Flávio pode continuar sendo o candidato mais forte do campo bolsonarista, mas isso não significa necessariamente que seja o candidato mais competitivo para todos os segmentos da direita, do centro-direita, do mercado e das estruturas partidárias municipais. Caiado e Kassab podem ocupar justamente esse espaço. Há estrutura partidária, capilaridade municipal, uma imagem de gestor, um discurso forte sobre segurança e a possibilidade de construir uma candidatura mais aceitável para setores que desejam derrotar Lula, mas não necessariamente querem uma candidatura identificada integralmente com o bolsonarismo. E há ainda o fator decisivo: o HGPE. Até aqui, estamos analisando principalmente pesquisas realizadas em um ambiente de pré-campanha. A partir do momento em que os candidatos tiverem tempo de televisão, palanques estaduais, recursos e capacidade de comunicação direta com milhões de eleitores, algumas candidaturas podem crescer, outras podem perder força rapidamente. Uma eleição ainda em aberto Lula permanece competitivo e parte na frente, mas há problemas importantes em Minas Gerais, Ceará, Bahia e São Paulo. Do lado da oposição, também não está completamente definido se a melhor alternativa para enfrentar Lula será necessariamente Flávio Bolsonaro. As pesquisas recentes, ao permanecerem estáveis mesmo diante de acontecimentos políticos relevantes, recomendam prudência. Mais do que apontar uma eleição definida, elas mostram um eleitorado relativamente cristalizado neste momento, mas que ainda poderá ser exposto a novas candidaturas, alianças, debates e estratégias de comunicação. A questão central, portanto, não é apenas quem lidera hoje. É quem terá capacidade de transformar aprovação, estrutura política e exposição eleitoral em voto efetivo quando a campanha começar para valer. E, nesse sentido, o HGPE pode ser o primeiro grande teste das hipóteses que as pesquisas de hoje ainda não conseguem responder. * Helcimara Telles é professora da UFMG e presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais (ABRAPEL)
Artigo: as pesquisas não mudaram; a eleição, sim, ainda pode mudar
Os números permanecem estáveis mesmo após episódios que poderiam afetar Lula e Flávio Bolsonaro











