A Lei Maria da Penha é um marco civilizatório no Brasil. Mudou crenças, atitudes e comportamentos e tornou visível uma violência historicamente escondida pelo silêncio dos lares, pela vulnerabilidade das vítimas e pela indiferença da sociedade. Lamentavelmente, a frieza dos dados demonstra que, sozinha, a lei não basta.

Em 2025, segundo dados do Ministério da Justiça, 1.470 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil. Há, porém, uma desigualdade ainda mais avassaladora nessa tragédia: 62,6% das vítimas eram mulheres negras.

Diante dessa realidade, é imprescindível ampliar a questão. Além de punir o agressor e proteger legalmente a vítima, quais condições concretas podem ajudar uma mulher negra e periférica a romper definitivamente com o ciclo da violência e reconstruir sua vida com segurança? A autonomia econômica e financeira é, certamente, uma delas.

Para muitas mulheres, deixar uma relação violenta significa também enfrentar a possibilidade de não ter renda, trabalho, moradia ou condições de sustentar a si mesmas e aos seus filhos. A dependência econômica pode funcionar como uma prisão silenciosa. Ignorá-la significa desconsiderar uma dimensão fundamental do problema e perpetuar uma realidade que precisa urgentemente ser transformada.