Há uma situação curiosa que se repete na minha profissão. Quando um cliente escolhe sozinho um investimento e ele vai mal, quase sempre há uma boa explicação. É para o longo prazo. Faz parte da diversificação. Protege contra determinado cenário. O mercado exagerou na queda. Quando sou eu quem recomenda um investimento semelhante e ele apresenta o mesmo desempenho ruim, a conversa costuma ser diferente: Michael, esse investimento não está rendendo. Não temos algo melhor?

Não estou dizendo que meus clientes sejam incoerentes. Provavelmente faço exatamente a mesma coisa quando avalio minhas próprias decisões. O curioso é perceber como podemos usar duas réguas para medir investimentos: quando a escolha é nossa, julgamos a tese; quando a escolha é de outro, julgamos o resultado. Um título IPCA+ que perde do CDI pode continuar sendo "um investimento para levar até o vencimento" se fui eu quem o comprou. Se foi recomendado pelo assessor, o resultado abaixo do CDI pode rapidamente virar evidência de uma escolha ruim.

A psicologia ajuda a explicar essa diferença pela dissonância cognitiva. É desconfortável conviver com duas ideias ao mesmo tempo: "sou capaz de tomar boas decisões" e "talvez eu tenha escolhido mal este investimento". Para diminuir esse desconforto, é tentador alterar a interpretação dos fatos antes de mudar nossa opinião. A queda deixa de ser um problema e passa a ser volatilidade de curto prazo. O investimento que decepcionou passa a ser de longo prazo. E uma tese que talvez merecesse ser revista ganha novos argumentos para continuar existindo.Nesse momento aparece o viés de confirmação. Depois de comprar um ativo, corremos o risco de deixar de ser apenas investidores para nos transformar em seus advogados. Procuramos informações que sustentam nossa decisão, valorizamos as notícias favoráveis e encontramos explicações para as desfavoráveis. Se acertamos, reforçamos a impressão de que analisamos bem. Se erramos, juros, política, câmbio ou o próprio mercado podem ganhar parte da culpa.