Uma vez, uma revista perguntou a Rubem Braga quais eram as dez coisas que faziam a vida valer a pena. O gigante da crônica não se escondeu e destilou belezas. Uma delas era tão específica que nunca esqueci: "Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para seu lado e, de repente, dar um chute perfeito e ser aplaudido pelos serventes de pedreiro".
Pois bem, ontem aconteceu comigo.
Bem no meio da praça Benedito Calixto, em Pinheiros, tem um campinho de futebol de salão, de cimento gasto. Passo por ali regularmente, e paro sempre para tomar um café ali em frente. Enquanto espero, na calçada, admiro o jogo barulhento e viril.
"Eles trabalham por aqui e jogam futebol na hora da folga", me diz o cara que faz o café.
Os jogadores dobram as barras das calças e fazem a divisão clássica no futebol brasileiro, os de camisa versus os sem camisa. A maioria está de tênis, um usa sapatos e dois jogam descalços mesmo. As divididas são ríspidas e sobram botinadas. A comemoração de um gol não tem dancinha. Quem sofre falta não reclama e volta logo à guerra.






