Quebra linhas, entrega gols, gera jogo, quebra pro ataque, ataca os espaços, ataca a profundidade, acha o passe, tem muita qualidade, jogador diferente, consegue machucar o adversário, faz bloco baixo, alarga o campo, joga entre linhas, faz o facão, dá uma fatiada, gesto técnico perfeito, desmonta a defesa, pisa na área, chapa no canto.

Há uma linguagem codificada dos comentaristas de futebol —em parte criada por jogadores e nem tão nova, mas de todo modo recente no tempo histórico— que teve sua apoteose na Copa do Mundo de 2026: o comentaristês.

Antigamente —tempo vago que a maioria de nós situa no século passado, o velho vintão—, se uma pessoa dizia que fulano entregava gols, ninguém que a ouvisse teria dúvida: estava falando de um goleiro inclinado a engolir frangos ou, no máximo, de um zagueiro trapalhão. Entregar gols era concedê-los.

O uso do verbo "entregar" no sentido daquilo que um goleador faz ao marcar gols, ou um time ao obter vitórias, é uma contaminação do inglês "deliver", com seus ares corporativos de triunfo profissional, de tarefa bem-cumprida.

Naquele tempo, vale notar ainda, machucar o adversário era assunto para o juiz —às vezes convocado a punir o agressor com o cartão vermelho, dependendo do caso— e, claro, para o departamento médico.