A cada vez que a morte sobe aos palcos, eu me pergunto em que cena vou tirar meu bloquinho da bolsa para anotar as novidades. É normal a gente encaixar personagens e frases naquilo que já conhece, quando fica muito perto de um assunto. O que eu mais gosto é da sensação do "isso ainda não tinha pensado".
Em "A Última Cova", de Newton Moreno para Marco França, a história do coveiro-justiceiro não coube no bloquinho. Quase nada do que Djalma fala sobre enterrar corpos encontrou referência aqui. Nunca tinha me ocorrido que o único lugar onde com certeza se acha alguém que sumiu é no cemitério. Todos vão passar por lá: vivos enterrando seus mortos, mortos enterrados por seus vivos. Todas as mães.
"A Última Cova" é uma espécie de Antígona pedagógica. Da necessidade humana por ritual digno de encerramento, emerge a justiça de outro plano. Djalma sepulta corpos e liberta almas. Desobedecendo à lei dos homens, reúne defuntos que, alguém convencionou, não podem ser enterrados juntos. Protege a árvore onde a amada deixada jura que ainda encontra seu marido. Não havia uma jaqueira no palco, dizem meus olhos. Mas a história do coveiro é tão convincente, que eu poderia jurar que a vi. O teatro é infinito, como a vida.






