Cerca de R$ 258 bilhões em títulos do Tesouro IPCA+ vencem neste sábado e serão devolvidos aos investidores na próxima segunda-feira. O montante corresponde a 10,75% de todo o estoque desse tipo de título, segundo informações do Tesouro Nacional. A maior parte deste valor pertence a grandes investidores, como fundos de pensão e de investimento. Mas cerca de R$ 13 bilhões estão nas mãos de pessoas físicas. Assim, quem realizou o investimento lá atrás terá agora uma graninha extra que poderá ser investida em novos títulos do Tesouro a taxas convidativas. Diante da incerteza com a condução das contas públicas, as remunerações desses mesmos papéis estão acima de 8% para além da inflação. Também é possível encontrar títulos prefixados a taxas extremamente atraentes, até mesmo acima de 14%, atual nível da Seli, a taxa básica de juros. Estas aplicações possuem remuneração anual a uma alíquota estabelecida na hora da compra. Veja abaixo o que vale mais a pena: Melhor aplicação depende do objetivo O cenário para investimento nesses títulos ainda é atraente devido à perspectiva de uma Taxa Selic ainda em patamar restritivo nos próximos anos e de uma inflação que deve seguir próxima dos 5% tanto neste ano como no próximo. A avaliação é de Larissa Frias, planejadora financeira do C6 Bank: — A inflação ainda seguirá pressionada pela economia aquecida, com muitos estímulos fiscais. O real ainda pode sofrer uma depreciação por conta do risco fiscal brasileiro, o que pressiona ainda mais a inflação. Isso traz pouco espaço para cortes adicionais na Selic — diz ela, afirmando que a renda fixa segue no patamar de “pagar 1% ao mês”. Para a planejadora, os objetivos do investidor do que fazer com o recurso no futuro é o que precisa ser levado em conta na hora de escolher pela reaplicação. — Os pós-fixados, como o Tesouro Selic, que acompanha a taxa e tem resgate imediato, são muito interessantes para o investidor em dois cenários: na parcela mais líquida, para reserva de emergência, na parte conservadora da carteira. E também funciona como um caixa para futuras oportunidades diante da alta volatilidade atual — afirma ela, citando o cenário de tensões e flutuações de juros como fatores para se reinvestir neste tipo de título. O Tesouro Selic remunera a taxa básica de juros da economia até o momento da retirada do investimento. O cálculo do rendimento vai sendo alterado até o vencimento, a depender do nível de onde a taxa básica estiver. Logo, o resultado final só é conhecido ao fim do prazo. Resgate antecipado Diferentemente do Tesouro IPCA+, que varia diariamente a taxas de mercado e pode apresentar até mesmo perda de valor se não for levado até o prazo final, o Tesouro Selic tende a apresentar volatilidade menor caso o investidor não deseje levar o investimento até o fim. O prazo é um dos fatores que precisam ser analisados com muita atenção na hora da escolha de um novo título pelo investidor. Isso porque quem comprou o Tesouro IPCA+ 2026 na estreia dele, há dez anos, não deve escolher automaticamente o mesmo papel “só porque rendeu bem”, diz a planejadora financeira Carol Stange: — O primeiro erro sobre realocação desse recurso que vai voltar para a conta do investidor é “decidir por inércia”. Um aposentado que vive de renda não tem o mesmo horizonte de quem está formando patrimônio para daqui a 15 anos. A taxa contratada define o retorno no vencimento, não o preço do papel amanhã. Larissa diz que, para quem deseja alongar os prazos de investimento, o próprio título Tesouro IPCA+ apresenta vantagens, como a proteção da perda do valor da moeda anual: — Ao mesmo tempo, nessas nuances do “abre e fecha” da curva de juros, o título é mais beneficiado. É uma boa opção para cinco, dez anos à frente — afirma. Nesta sexta-feira, o Tesouro oferece títulos atrelados à inflação com remuneração de 8,2% mais a correção da inflação anual para o prazo de 2032, e retorno de IPCA mais 7,7% para 2040. Para investimento a médio prazo Para prazos médios, de até cinco anos, uma boa opção na avaliação de Larissa Frias são os títulos prefixados. Eles possuem taxas predefinidas no momento da compra e, no atual patamar, são bastante atraentes. — Em qualquer respiro, melhora no ambiente doméstico e internacional, temos um alívio nessa taxa futura — diz. Ou seja: se o ambiente macroeconômico melhorar, as taxas oferecidas hoje nos prefixados tendem a cair para novas compras. Como a remuneração nesses casos é determinada na hora da compra, o investidor não terá retorno menor com a melhora das condições macroeconômicas. Nesta sexta-feira, os títulos prefixados são vendidos a taxas acima da Selic, com remunerações de 14,5% para o prazo de 2029 e 14,86% para vencimento em 2032. Busca pela diversificação A diversificação entre os papéis também é algo que deve ser levado em conta, avalia Carol Stange. Para ela, não se deve concentrar todo o investimento em títulos atrelados à inflação "só porque o juro real está atraente agora": — Renda fixa bem construída equilibra três lógicas distintas: a proteção contra inflação do IPCA+, a liquidez e previsibilidade de curto prazo do pós-fixado, e a trava de taxa nominal do prefixado, que fica interessante quando se aposta em queda de juros à frente. Ignorar os outros dois para perseguir o indexador que rendeu bem no passado é raciocínio de retrovisor — diz ela, afirmando que uma carteira de investimentos concentrada em títulos IPCA+ ficam refém da inflação e pode render pouco se o indicador cair. Taxas podem cair, mas não tanto Com todo esse volume de recursos “liberado” no mercado na próxima segunda-feira, a busca por recompras deve impactar a liquidez dos títulos ainda em venda na sessão da semana que vem. Isto porque as aplicações viram caixa e, para manter os rendimentos, os grandes investidores precisam realocar o dinheiro em novos investimentos: — Além da rolagem (adiamento) de posições indexadas ao IPCA, fundos de investimento têm que rebalancear suas carteiras. Essa demanda pode gerar algum alívio nas taxas dos vencimentos mais curtos — avalia Sergio Goldenstein, ex-chefe do Departamento de Mercado Aberto do BC e sócio-fundador da consultoria Eytse Estratégia. Mas, mesmo com a demanda crescendo e apertando os rendimentos, as taxas seguirão atraentes e não devem ter grandes diferenças, diz Goldenstein: — Um recuo substancial só ocorreria principalmente com medidas de consolidação fiscal, o que não está no radar no curto prazo.