Os títulos do Tesouro apresentam, desde a semana passada, níveis expressivos de rendimento. O Tesouro IPCA+ (indexado à inflação) com vencimento em 2032, por exemplo, oferecia, na manhã de ontem, 8,56% de ganho real (ou seja, acima da inflação), enquanto o Tesouro Prefixado para 2032 remunerava o investidor em 14,9% anualmente os investidores que desejavam comprá-lo. Nos vencimentos mais longos, as taxas também seguem em patamares elevados. O Tesouro IPCA+ com vencimento de 2040 gerava ontem retornos reais de 7,54% ao ano. A oscilação foi tão forte que o Tesouro Nacional cancelou as negociações que faria nesta terça-feira aos investidores institucionais, vendendo títulos atrelados à inflação. Retornos mais altos em uma década Os títulos vêm sendo negociados a taxas máximas de retorno há algumas semanas, afirma Marília Fontes, sócia-fundadora da Nord Investimentos. Segundo ela, as taxas para os títulos com cerca de cinco anos de vencimento — caso do IPCA+ 2032 — estão no maior nível desde 2016, durante a crise econômica do país naquele momento, que ampliava as incertezas futuras: — O mercado está precificando que o juro pode até cair no curto prazo, mas que ele vai ter que voltar a subir no longo prazo — ela disse. Veja os principais títulos e quanto rendem Quanto rende R$ 1 mil em cada título Nome do título Taxa ao ano Recebimento estimado (em R$, já descontado IR) Comparação com a Poupança (em R$) Tesouro Prefixado 2029 14,91% 1.349,01 1.196,03 Tesouro Prefixado 2032 14,90% 1.954,24 1.469,24 Tesouro Selic 2031 taxa Selic + 0,0742% 1.527,72 1.386,49 Tesouro IPCA+ 2032 IPCA+ 8,56% 1.886,67 1.529,22 Tesouro IPCA+ 2040 IPCA+ 7,54% 3.952,33 2.645,16 Obs: Rendimento ao fim do prazo de cada título Combinação de fatores O avanço recente dos rendimentos é reflexo de diversos fatores, avalia Marco Antônio Caruso, economista do Santander: — O mercado passou a exigir um prêmio maior para carregar ativos de prazo mais longo, diante das incertezas futuras, das dúvidas sobre a trajetória da inflação e do cenário político dos próximos anos. O aumento dos rendimentos também reflete a preocupação quanto à trajetória dos gastos públicos. Como mostrou O GLOBO, só em 2026 o governo já lançou medidas que podem estimular a economia em 1,6% do PIB. Toda essa injeção de recursos tende a fomentar a inflação, diante do aumento de gastos, pressionando os juros à frente para conter os preços. Larissa Frias, planejadora do C6 Bank, também lembra das expectativas de juros no exterior, como nos EUA, onde os investidores veem a possibilidade de um aumento da taxa básica até o fim do ano. As previsões no exterior e por aqui foram revisadas para cima diante da extensão do conflito geopolítico no Irã, que aumentou o preço dos combustíveis e impactou os preços de diferentes setores da economia. Há riscos? O Tesouro Direto é um investimento com garantia soberana do governo, que garante o retorno do capital e seus juros na data do vencimento. Ainda assim, o investidor precisa ter atenção aos seus objetivos e a sua tolerância diante de oscilações. Para isso, o aplicador deve se conhecer e ter alguns pontos em mente. Analistas afirmam que o prazo, por exemplo, é o fator número 1 para a hora de adquirir um título, já que o dinheiro aplicado pode render negativamente nos momentos iniciais se for observado o valor de mercado do papel. É a chamada marcação a mercado. Nos títulos públicos, há dois canais que se conversam até o período de vencimento da aplicação: os preços e os prazos. Marília, da Nord, explica que o preço é aquilo que se paga inicialmente, valor vinculado a uma determinada taxa. Acontece que, por conta da volatilidade, a taxa pode subir, implicando num rebaixamento do preço, ou seja: é possível que o investidor veja seu dinheiro render negativamente, apesar da segurança de que o valor prometido será pago no vencimento. Por isso, o investidor precisa ter atenção se não quiser manter aquele título até o determinado vencimento: — Se você tentar vender títulos prefixados antes do vencimento e as taxas sobem, você tem prejuízo de marcação a mercado. São títulos que podem ter um viés de perigo no curto prazo — ela diz. Tesouro Selic elimina oscilações de mercado Larissa, do C6, afirma que os títulos atrelados à inflação nas taxas atuais são interessantes para quem deseja começar a investir na aplicação. Para quem acha 2032 muito longe e para investidores mais conservadores, que podem ficar desconfortáveis com a dinâmica de marcação a mercado, a grande opção seria o título pós-fixado, o Tesouro Selic. Ele persegue a taxa básica diariamente e são, na visão da planejadora financeira, excelente opção para garantir rendimento e usá-lo como reserva de emergência. Para quem não quiser escolher um a um, Larissa recomenda fundos de investimento em renda fixa, que perseguem os rendimentos de títulos do Tesouro com gestão profissional. — O investidor acaba reduzindo o risco de concentração, pois os fundos facilitam o acesso a todos os ativos de renda fixa. E ainda assim ele consegue capturar os níveis de juros altos — diz a planejadora do C6. Se liga no Imposto de Renda Mas os investimentos em títulos não são isentos de cobrança de impostos. Diferentemente da poupança, há cobrança de Imposto de Renda no Tesouro Direto, que é abatido apenas no momento do resgate. Ele varia conforme a tabela regressiva, que é escalonada diante do prazo da aplicação. Para quem realiza retiradas dos investimentos antes de 31 dias da aplicação inicial, também é cobrado o IOF. Imposto de Renda regressivo sobre aplicações Prazo do investimento Alíquota de Imposto de Renda (apenas sobre rendimentos) Até 180 dias 22,5% De 181 até 360 dias 20% De 361 até 720 dias 17,5% Mais de 720 dias 15%
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