Segundo a XP, o endividamento recorde dos governos está no centro das conversas de alocação no mercado financeiro e tem mudado estruturalmente a forma de investir Como investir na renda fixa sob juros altos por mais tempo — Foto: Freepik Títulos atrelados ao IPCA com vencimento de até seis anos se tornaram a resposta da XP para um cenário que, na avaliação da casa, deixou de ser conjuntural: as taxas nos contratos dos juros de longo prazo - aquelas que refletem o custo de financiar a dívida de um governo por 10, 20 ou 30 anos - subindo ao mesmo tempo nos Estados Unidos, no Japão, na Alemanha, no Canadá e no Reino Unido. O fenômeno se agrava com os governos nos maiores índices de endividamento da história. "Para proteger o poder de compra num cenário de inflação residual maior, a resposta são ativos reais", diz Artur Wichmann, CIO (chefe de investimentos) da XP. Ativos reais são aqueles atrelados à economia concreta - ações industriais, imóveis, commodities - em oposição a aplicações cujo retorno depende exclusivamente da taxa de juros do momento. O CDI (índice de referência na renda fixa e que acompanha a Selic de perto), que atrai quase a totalidade do dinheiro do investidor brasileiro, não oferece essa proteção - ao menos não a que parece oferecer. Abandonar a forte indexação das carteiras aos juros ou buscar outros ativos reais para aumentar a proteção (como o ouro) e os ganhos? Esse dilema está no centro das conversas de alocação da XP e de outros grandes institucionais no mundo em meio ao crescimento exponencial das dívidas públicas. Por que não confiar só no CDI O diagnóstico de Wichmann parte do endividamento público global. Os governos injetaram estímulos em escala inédita e não dão sinais de freio. No Brasil, o governo injetou R$ 200 bilhões em estímulos desde o final de 2025, com a dívida bruta caminhando para 83% do PIB neste ano e 88% em 2027, nas projeções da XP. Esse fenômeno, que não é exclusivo do Brasil, explica por que os juros longos sobem mesmo em países onde a inflação de curto prazo não é o problema principal. A consequência prática é uma inflação residual persistentemente acima da meta. Não necessariamente porque os bancos centrais erram na condução da política monetária, mas porque essas políticas governamentais competem com os efeitos dos juros nas economias. Nessa visão da casa, o problema do CDI é temporal, já que o indexador garante retornos enquanto a Selic está alta, mas quando o ciclo monetário virar, o rendimento cai junto. Já os títulos atrelados ao IPCA travam o juro real antes dessa virada. E, no Brasil, Wichmann enxerga uma oportunidade específica nisso. Os juros reais (o juro nominal descontada a inflação corrente) estão num patamar que ele classifica como "incivilizado". É esta estimativa que conduz a taxa prefixada em títulos que pagam IPCA+. "Porém, o Brasil não vai ficar com taxa de juros real acima de 7,5% durante dez anos, porque não é sustentável, é um cenário em que a dívida pública explode", afirma. A recomendação de IPCA+ com prazo de até seis anos, portanto, captura esse nível elevado de hoje antes que ele ceda. Cenário alternativo não muda a aposta Há teses circulando no mercado que poderiam invalidar o raciocínio da XP. Nelas, especialistas sugerem que o choque de produtividade prometido pela inteligência artificial (IA) faria o PIB crescer rápido o suficiente para estabilizar a relação entre dívida pública e PIB sem corte de gastos. Wichmann não descarta essa hipótese, mas certamente não aposta nela. "É possível? Sim. É o padrão histórico das mudanças tecnológicas? Não. O padrão histórico é que você tem um ganho de produtividade durante algum tempo e depois esse fenômeno reverte para a média." A recomendação da XP, portanto, é construir um portfólio que funcione nos dois mundos - tanto no cenário em que a IA resolve a equação fiscal quanto no cenário em que os governos seguem gastando mais do que arrecadam. Em ambos, a proteção passa pelos mesmos ativos, os ligados à economia real. É uma mudança de lógica mais do que de produto. A pergunta deixa de ser qual ativo rende mais e passa a ser qual protege os ganhos se o juro não cair, se a inflação não ceder e se os governos não pararem de gastar. Para o investidor brasileiro, acostumado a resolver a vida com o CDI, é um convite a pensar com mais carinho em outros indexadores na renda fixa, como os títulos que acompanham o IPCA.
Como investir na renda fixa sob juros altos por mais tempo
Segundo a XP, o endividamento recorde dos governos está no centro das conversas de alocação no mercado financeiro e tem mudado estruturalmente a forma de investir















