A inclusão irregular de Flávio Bolsonaro nos quadros do Missão, partido de seu adversário na corrida presidencial Renan Santos, começou como um problema para o registro da candidatura do senador pelo PL e acabou provocando uma investigação mais ampla sobre possíveis fraudes no sistema de filiação partidária da Justiça Eleitoral. Depois do episódio, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) identificou uma tentativa de alterar também a filiação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e decidiu suspender temporariamente o processamento de novos registros. No caso de Flávio, a alteração chegou a ser efetivada. O sistema passou a apontá-lo como integrante do Missão e, como consequência, encerrou automaticamente sua filiação ao PL. Isso impediu que a campanha registrasse na manhã de quinta-feira sua candidatura à Presidência pela legenda que o havia escolhido em convenção. No caso de Lula, segundo o TSE, a tentativa foi identificada e bloqueada antes de produzir o mesmo efeito. O presidente permaneceu filiado ao PT. Há pontos que o TSE já conseguiu esclarecer sobre o caso do presidenciável do PL. A Corte afirma que seus sistemas não foram hackeados e o presidente Nunes Marques considerou, ao devolver Flávio ao PL, haver elementos suficientes para concluir preliminarmente que o senador não manifestou vontade de trocar de partido. A autoria da operação, porém, permanece desconhecida. O coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN), evita atribuir neste momento a fraude ao Missão ou apontar um responsável. Segundo ele, a autoria deverá ser esclarecida a partir da apuração do episódio. — O Judiciário, após a investigação, vai determinar quem foi — afirmou Marinho ao GLOBO. Também há versões conflitantes sobre a cronologia. O Missão diz ter percebido uma tentativa de filiação de Flávio desde 2 de agosto, afirma que avisou o gabinete do senador e sustenta possuir e-mails, logs e endereços IP relacionados ao episódio. Como Flávio acabou filiado ao partido de seu adversário? O caso veio à tona na quinta-feira, quando a equipe de Flávio tentou formalizar no TSE sua candidatura à Presidência. Foi nesse momento que integrantes da campanha descobriram que, para a Justiça Eleitoral, o senador já não estava filiado ao PL. O sistema apontava que Flávio havia deixado a legenda no dia 12 de agosto e ingressado no Missão na mesma data. Isso ocorreu porque o sistema de filiação considera o vínculo partidário mais recente. Ao ser inserida uma nova filiação ao Missão, o vínculo anterior de Flávio com o PL passou a constar como encerrado, com a indicação “desfiliação por filiação mais recente”. Uma certidão emitida pelo próprio TSE às 23h17 do dia 12 ainda mostrava Flávio como filiado regular e exclusivamente ao PL, partido ao qual estava vinculado desde 30 de novembro de 2021. Na manhã do dia 13, a situação já era outra. Uma certidão histórica emitida às 9h05 mostrava o vínculo com o Missão, e uma nova consulta feita antes das 9h42 apontava a desfiliação do PL. Ou seja: a mudança ocorreu em uma janela inferior a 11 horas. A alteração conseguiu, ainda que temporariamente, impedir o registro da candidatura. O TSE foi hackeado? O TSE diz que não. Essa foi uma das primeiras hipóteses levantadas pela campanha de Flávio quando a alteração foi descoberta. A Corte, porém, informou que não identificou uma invasão de seus próprios sistemas. Neste contexto, o que está sob investigação é o uso indevido de credenciais que permitem operar a ferramenta de filiações partidárias. Por que Nunes Marques concluiu que Flávio não quis trocar de partido? Depois de descobrir a alteração, a defesa de Flávio procurou o TSE e pediu uma decisão urgente para desfazer seus efeitos antes do encerramento do prazo de registro das candidaturas. Nunes Marques acolheu integralmente o pedido. O ministro considerou que os documentos apresentados mostravam que Flávio tinha uma filiação regular ao PL e que, poucas horas depois, o cadastro havia sido modificado sem que houvesse qualquer manifestação de vontade do senador nesse sentido. Além dos registros do sistema, Nunes levou em consideração uma circunstância política: não faria sentido, segundo ele, que Flávio deixasse voluntariamente o partido pelo qual disputaria a Presidência para ingressar justamente em outra legenda que já tinha candidato ao mesmo cargo, Renan Santos. “O Partido Missão, por sua vez, já possui candidato próprio e assumido ao mesmo cargo, circunstância que torna inverossímil a alegação de que o requerente teria migrado voluntariamente para agremiação que já anuncia a disputa à Presidência com outro nome”, escreveu. Para Nunes, a “incompatibilidade entre o perfil público” do senador e a nova filiação era mais um indício de que o registro não refletia sua vontade. Nunes então determinou que a filiação de Flávio ao PL fosse restabelecida retroativamente a 30 de novembro de 2021, preservando a continuidade do vínculo, e que a filiação ao Missão fosse excluída. Também mandou liberar o Candex, sistema utilizado para processar o registro da candidatura. Assim, Flávio conseguiu registrar a candidatura por volta das 19h de quinta-feira. O que diz o Missão? O partido de Renan Santos sustenta que também foi vítima da fraude e apresentou uma informação que ampliou a cronologia do caso. Segundo o Missão, a primeira tentativa de filiar Flávio não ocorreu na noite de 12 de agosto. A legenda afirma ter identificado uma movimentação nesse sentido ainda no dia 2, onze dias antes de o episódio se tornar público. O partido diz que, diante dessa primeira tentativa, enviou mensagens ao gabinete de Flávio para alertá-lo. Segundo a legenda, os e-mails foram abertos, mas não respondidos. O Missão afirma ainda que tentou cancelar a filiação quando detectou a irregularidade, mas que a operação foi rejeitada pelo TSE. A legenda diz que entregará às autoridades um relatório com logs, e-mails e endereços IP para ajudar a identificar o responsável. Um documento produzido pela área de tecnologia do Missão e divulgado pelo partido mostra ainda dados aparentemente falsos e provocativos inseridos no cadastro. O endereço atribuído a Flávio aparece como “Rua dos Bandidos, nº 666, Bairro Miliciano, Rio de Janeiro/RJ”. A pessoa que preencheu esses dados ainda não foi identificada. O presidente do Missão, Renan Santos, também afirmou ter registros relacionados ao uso do e-mail oficial de Flávio no procedimento e levantou duas possibilidades: a conta ter sido invadida ou alguém da própria equipe do senador ter participado da operação. Não há, até agora, comprovação pública de nenhuma dessas hipóteses. Por que Nunes Marques suspendeu novas filiações? A descoberta de uma tentativa semelhante contra Lula ampliou o alcance do caso. Depois da alteração na filiação de Flávio, a equipe técnica do TSE identificou uma tentativa de modificar também o vínculo partidário do presidente. Diferentemente do que ocorreu com o senador, porém, a mudança foi bloqueada antes de ser efetivada, e Lula permaneceu filiado ao PT. Diante das ocorrências, Nunes Marques determinou a suspensão temporária do processamento de novas filiações pelo sistema Filia. A ferramenta continua recebendo pedidos, mas eles não serão processados enquanto o TSE adota medidas para reforçar a segurança. Segundo a Corte, a interrupção não causa prejuízo eleitoral aos partidos ou filiados, e a expectativa é que o processamento seja retomado em breve. A investigação agora deverá buscar a autoria das operações e esclarecer como foram utilizadas as credenciais partidárias. No caso de Flávio, Nunes Marques determinou a preservação dos registros de log e de acesso ao Filia e o envio do caso à Polícia Federal para abertura de inquérito destinado a apurar “a autoria, as circunstâncias e o contexto” da alteração.
Caso Flávio e Missão: entenda o que se sabe e o que falta descobrir sobre a fraude na filiação
Alteração impediu por algumas horas o registro da candidatura do senador pelo PL; Corte encontrou tentativa semelhante contra Lula, bloqueou processamento de novas filiações e acionou PF













