O futuro herói tem uma vidinha pacata, mas a aventura chama: alguma dificuldade ou desafio que o herói ainda não tem competência para atacar, mas ele vislumbra uma possibilidade de sucesso e vai atrás. No caminho, alguns passam a perna nele, outros lhe estendem a mão para erguê-lo do tropeço, e uma ou outra pessoa, poderosa ou apenas já escolada pela vida, resolve lhe ensinar alguns truques.

Armado de competências cada vez mais fortes, o aventureiro ataca dificuldades cada vez maiores, escala montanhas metafóricas ou literais cada vez mais íngremes, até que um dia, transformado, satisfeito, cansado ou todas as alternativas acima, resolve voltar para casa, ou achar uma: aquele lugar que é tranquilo e seguro porque tudo nele é conhecido.

Sua mente provavelmente buscou encaixar na narrativa acima seu herói preferido, aquele que seu cérebro representou e valorizou mais vezes e com mais gosto, ou mais recentemente, como o Ulisses cuja versão do Christopher Nolan anda pelas telas de cinema, e já já numa telinha perto de você, caso você não queria se aventurar com o poema de Homero. Também cabe Bilbo Baggins, Frodo, Forrest Gump e tantos outros protagonistas de estórias populares.

E também cabe você, herói da sua própria história, e sem precisar que algum escritor tome você como personagem principal para aplicar a fórmula narrativa que estudiosos variados chamam de Jornada do Herói, Mito do Herói ou Monomito. Acontece que toda vida de quem tem cérebro é uma jornada do herói por uma razão muito simples: é assim que o cérebro funciona. Nascemos cheios de permitências, que são aquelas características biológicas que nos dão possibilidades, mas com essencialmente zero habilidades de fato. Nosso cérebro é um bloco de matéria-prima bruta cheio de futuros possíveis, mas de presente ainda amorfo. Neste estado, tudo é dificuldade e desafio, de manter-se de pé a escalar montanhas.