Há os que nunca viajam e os que nunca param de viajar.
Ulisses, o rei mítico da ilhota de Ítaca, passa 20 anos de sua vida fora de casa, a ponto de conhecedores da sua saga se perguntarem se ele tinha de fato uma casa. O herói se forma em trânsito, no movimento de campanhas militares e em longas viagens repletas de incidentes extraordinários.
Na Paris do final do século 18, atravessada pelo terror revolucionário, morria aos 39 anos George Forster, um viajante empedernido. Com o pai, Reinhold, ele participara da segunda viagem do capitão James Cook, que teve instruções da coroa britânica de verificar a existência de um hipotético continente em latitudes elevadas ao sul do equador. Durante três anos, a partir de 1772, o auxiliar adolescente acompanhou seu genitor, o botânico da expedição, a bordo do Resolution.
Por causa do que percebeu, extraiu e publicou desse contorno da Antártida com detidas incursões na Oceania e na Polinésia, George virou popstar nos círculos esclarecidos do seu tempo. Porque nunca parou quieto, rompeu laços com quem poderia difundir seu evangelho. Ele enxergou a humanidade.
A historiadora Andrea Wulf conta a vida de George Forster em seu livro mais recente, "The Traveler" (o viajante). A suposição de que uma porção de terra deveria existir na faixa temperada do hemisfério sul, para equilibrar o peso da massa continental do norte do planeta, era apenas uma das crenças erradas inculcadas em navegadores, aventureiros e governantes de impérios coloniais na época de Forster e Cook.







