Terminada a conferência em Bilbao, uma gracinha de cidade, escondida nas profundezas de um vale no norte da Espanha, tirei minha semana de férias, aproveitando que minha passagem transatlântica já estava paga. Eu sugeri o roteiro e meu fiel escudeiro-marido-co-motorista aprovou: rodaríamos pela costa noroeste da Espanha, visitando as praias de falésias que nos parecessem promissoras, em direção ao norte de Portugal, de onde desceríamos de volta a Lisboa para pegar o avião.

Acontece que no meio do caminho tinha Santiago de Compostela, como a pedra do Drummond, embora esta fosse uma pilha bem organizada de pedras, formando uma catedral que dezenas de milhares visitam a cada ano. Resolvi então que a pilha bem organizada de pedras no meio do caminho viraria um de nossos destinos.

Mas não por vocação religiosa, pois, para tristeza da minha falecida avó, não tenho nenhuma. A culpa é em parte dela mesma, que um dia, de certo tentando me converter ao seu catolicismo, soltou um "que pena que seus pais não acreditam em Deus; quando morrerem eles vão para o inferno". Virei ateia ali mesmo, pois não queria ter nada a ver com um deus que mandasse meus pais pro inferno só por serem incrédulos.

Os crédulos, contudo, veem em Santiago de Compostela um destino sagrado, final de um caminho de peregrinação que promete indulgência plena –além da vista do túmulo que supostamente contém os restos mortais de um Santus Iacobus, encurtado para Iago que com o Santo na frente virou Santiago e degenerou para Tiago.