Celebração ocorre em meio ao crescente tensionamento das relações entre Havana e Washington, com um embargo petrolífero à ilha declarado pelo presidente Donald Trump 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Um homem passa em frente a um mercado em Havana com fachada decorada com um mural de Fidel Castro — Foto: Ramon Espinosa/AP Cuba celebra nesta quinta-feira o nascimento do líder revolucionário Fidel Castro em meio a uma das mais graves crises econômicas e políticas de sua história, agravada pelo embargo petrolífero imposto pelos Estados Unidos e pelo endurecimento das sanções sob Donald Trump. Mais de 1,5 mil ativistas e representantes de organizações de solidariedade a Cuba de mais de 60 países da América Latina, Europa, África e Ásia viajaram nesta semana à ilha caribenha para participar dos eventos comemorativos em homenagem a Fidel, segundo o governo cubano. "O legado de Fidel fala conosco hoje com mais força do que nunca", disse o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, na abertura, na segunda-feira, de uma conferência internacional sobre o legado do líder revolucionário. Díaz-Canel acrescentou que era importante se lembrar de Fidel não apenas como uma figura histórica, mas também como "um guia para superar os desafios que temos hoje pela frente, na Cuba real de 2026". A celebração ocorre em meio ao crescente tensionamento das relações entre Havana e Washington. Em janeiro, Trump impôs um embargo de petróleo à ilha para pressionar Cuba. Washington também endureceu as sanções, no que o governo cubano descreve como uma tentativa sem precedentes de paralisar suas finanças e operações. A mudança da política dos EUA teve impactos amplos em toda a ilha. Os apagões, que ultrapassam 20 horas por dia na maioria das províncias, prejudicaram a produção de alimentos, o transporte e o turismo, levando o sistema elétrico nacional de Cuba à beira de um colapso técnico. Somente em julho, a rede sofreu três falhas em todo o país. Em resposta à crise, o governo cubano aprovou, em junho, um pacote de 176 medidas destinadas a abrir a economia socialista da ilha ao investimento privado e estrangeiro. As medidas, se plenamente implementadas, representariam uma adesão sem precedentes ao capitalismo de livre mercado e contrastariam fortemente com o modelo socialista que definiu o governo de Castro durante décadas. Algumas reformas já estão em andamento. No setor de energia, por exemplo, as exportações de combustíveis dos Estados Unidos para empresas privadas cubanas dispararam neste ano, alimentando o crescimento de um mercado negro caótico e aprofundando a desigualdade social e econômica. Funcionários de uma escola se reúnem na entrada, perto de cartazes dedicados ao falecido presidente cubano Fidel Castro — Foto: Norlys Perez/Reuters Nostalgia Para alguns moradores de Havana, a crise econômica e a incerteza política provocaram uma profunda nostalgia da liderança de Castro. “Em um momento de crise como este, ele talvez tivesse outras soluções que simplesmente não temos hoje”, disse Benito Cisneros, de 62 anos. Castro nasceu na província oriental de Holguín em 13 de agosto de 1926. Líder da Revolução Cubana de 1959, tornou-se uma das figuras mais influentes da esquerda internacional. Uma década após sua morte, seu legado continua central para a narrativa nacional de Cuba. Mas Fabio Fernández, professor de História da Universidade de Havana, disse que muitos dos atuais responsáveis por governar o país não estiveram à altura do exemplo de seu antecessor. “Invocá-lo é uma tentativa de manter o consenso”, disse Fernández. “Mas, quando se conversa com as pessoas nas ruas, algo muito evidente surge: muitos acreditam que, se Fidel ainda estivesse conduzindo o destino do país, Cuba seria um país diferente.”