Líder caribenho que faria 100 anos hoje comeu vatapá, deu charuto para Juscelino Kubitschek, exaltou a reforma agrária e defendeu o fuzilamento de opositores em seu país 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Fidel Castro acena antes de discurso no Rio, em 1959 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO Fidel Castro chegou ao Rio menos de seis meses depois da Revolução Cubana, durante uma "turnê" de 25 dias que passou por vários países das Américas, em maio de 1959. O então jovem líder caribenho, que completaria 100 anos nesta quinta-feira, desembarcou com sua comitiva de 50 pessoas, incluindo 20 jornalistas, assessores e um provador especial de comida, responsável por experimentar todos os alimentos que seriam servidos ao chefe de Estado. Aos 32 anos, Fidel pisou na então capital brasileira vindo de São Paulo e elogiou a tranquilidade da recepção. "Em São Paulo não foi assim, os fotógrafos quase me cegaram com os flashes, mas aqui me protegeram com uma corda". O revolucionário tinha tomado posse como primeiro-ministro em fevereiro daquele ano, semanas após a deposição do ditador Fulgêncio Batista, que fugiu do país no dia 1º de janeiro. Aquela era a primeira viagem oficial de Fidel ao Brasil, mas, naquele dia 5 de maio, o próprio líder cubano disse que já havia visitado o país antes, sem especificar a ocasião: "Encontro-me feliz de estar aqui pela segunda vez", afirmou ele. "Sinto que todos os brasileiros falam a mesma língua que os povos de origem espanhola, pois me entendem quando falo. Isto é uma prova de que a América Latina deve unir-se e lutar pelos ideais comuns, ou, seja, paz e prosperidade para o continente". Fidel com Juscelino Kubitschek e João Goulart no Rio em 1959 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO O visitante se dirigiu ao antigo Hotel Excelsior em Copacabana e, de acordo com a reportagem do GLOBO publicada no dia seguinte, depois de almoçar e descansar, ele foi levado até a sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Centro, onde concedeu uma entrevista coletiva em um salão que ficou pequeno para a quantidade de jornalistas e curiosos. Fidel fez um discurso longo a favor da reforma agrária que pretendia realizar no seu país, que o jornal resumiu desta forma: "Uma grande parte das terras em Cuba não está produzindo o que poderia. Por outro lado, temos 700 mil desempregados e gastamos muito dinheiro na compra de gêneros de primeira necessidade. A população aumenta, e o montante de divisas que recebemos continua o mesmo. Isto vai promovendo o empobrecimento do país", disse ele. "A revolução propõe a redistribuição das terras que não estão em regime de produção àqueles que desejam trabalhá-la, com crédito a juros de 4% ao ano, materiais para a mecanização da lavoura e toda a assistência técnica. Isso vai criar um mercado interno para a indústria que pretendemos implantar e que vai dar início ao enriquecimento do país. Quando começaram os embargos contra Cuba? Àquela altura, Fidel não se declarava um comunista. Seu governo ainda não tinha se aproximado da União Soviética e não era considerado um inimigo pela Casa Branca, que havia adotado uma posição de neutralidade durante o conflito entre as forças rebeldes cubanas e o governo autoritário de Batista. Em abril daquele ano, o líder revolucionário tinha até mesmo visitado os Estados Unidos, a convite da Sociedade Americana de Editores de Jornais. Ele depositou flores no túmulo de George Washington, comeu um suculento cachorro-quente no estádio dos Yankees, em Nova York, e teve um encontro amistoso com então o vice-presidente americano, Richard Nixon. Fidel Castro com repórteres durante visita ao Rio em 1959 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO A situação mudaria muito a partir do dia 17 de maio de 1959, quando, na volta de sua viagem pelas Américas, Fidel assinou a Primeira Lei da Reforma Agrária, que, idealizada por Ernesto Che Guevara, deu início à desapropriação de grandes latifúndios, atingindo diretamente as terras de empresas e cidadãos americanos em Cuba. A medida abriu caminho para uma série de outras nacionalizações. Pouco depois, em 1960, o país caribenho estreitou relações com os soviéticos. Todo esse cenário gerou uma sequência de reações enfurecidas de empresários e políticos americanos e levou a Casa Branca a dar início à política de embargos econômicos contra Cuba que permanece até hoje. No segundo dia de sua viagem ao Brasil, Fidel visitou pela manhã o Batalhão de Guardas, em São Cristóvão, a convite do marechal Teixeira Lott, então ministro de Guerra. Na volta para Copacabana, quando o comboio saiu do Túnel do Pasmado, o carro que levava o então primeiro-ministro teve um pneu furado. O imprevisto fez o veículo derrapar levemente, dando um susto nos batedores que o acompanhavam. Também um pouco assustado, Fidel entrou no carro dos agentes brasileiros que faziam sua segurança e começou a perguntar sobre as armas que eles estavam carregando. Fidel Castro durante discurso na Esplanada do Castelo, no Rio, em 1959 — Foto: Arquivo/Agência O GLOBO Por volta de meio-dia, o visitante chegou ao Palácio das Laranjeiras, onde se reuniu com então ministro das Relações Exteriores, Francisco Negrão de Lima, e o presidente da República, Juscelino Kubitschek. Ele comeu vatapá e deu um charuto Havana de presente ao chefe de Estado brasileiro, que, bastante sem jeito, levou o fumo à boca confessando que aquela era sua primeira vez. Um pouco mais tarde, no Palácio da Guerra, Fidel e o marechal Lott tiveram uma animada conversa sobre a Revolução Cubana. O primeiro-ministro falou sobre os obstáculos vencidos pelos rebeldes, e o militar brasileiro criticou as execuções que vinham acontecendo sob as ordens do líder revolucionário. Naqueles meses depois da deposição de Fulgêncio, o novo governo cubano promovia o fuzilamento sumário de centenas de policiais e colaboradores do antigo ditador. A certa altura do diálogo, Lott chegou a dizer que Fidel estava dando início a sua administração em Cuba com um banho de sangue. Ao responder, Castro disse que as execuções vinham acontecendo por questão de justiça. "Se não fizéssemos justiça, aí sim é que correria sangue inocente em Cuba", afirmou ele, antes de se dirigir para um discurso em praça pública, na antiga Esplanada do Castelo, na presença de milhares de pessoas, durante o qual defendeu mais uma vez a reforma agrária, a união das Américas e a liderança do Brasil na região. Para Fidel, Brasília, a cidade que ainda estava em construção na época, não seria apenas a capital do Brasil, mas de todo o continente.
A visita de Fidel Castro ao Brasil meses depois da Revolução Cubana
Líder caribenho que faria 100 anos hoje comeu vatapá, deu charuto para Juscelino Kubitschek, exaltou a reforma agrária e defendeu o fuzilamento de opositores em seu país











