No centenário do nascimento de Fidel Castro, celebrado nesta quinta-feira (13), os cubanos se perguntam o que resta das promessas da revolução socialista que ele liderou durante quase meio século e se seus sucessores estão à altura do desafio. O Partido Comunista de Cuba dedicou esta semana a homenagear o líder revolucionário — morto aos 90 anos em novembro de 2016 — com exposições, shows e conferências. Mas este 13 de agosto chega em meio a uma das piores crises de que se tem memória na ilha de 9,4 milhões de habitantes, submetida à forte pressão de Washington e afetada por uma grave escassez de alimentos e água, além de apagões crônicos causados pelo bloqueio de petróleo determinado pelo governo de Donald Trump. Tudo isso em cima do embargo econômico imposto pelos EUA contra a ilha desde 1962. Antes de colocar uma imagem de Fidel na janela de sua casa em Havana, o cubano Leonel Suárez a beija. Este eletricista de 54 anos, que há mais de uma década coleciona lembranças da revolução em um pequeno bar em sua casa, chama Castro de "mestre". E diz que, se estivesse vivo hoje, o líder enfrentaria a crise "com muita estratégia (...) dando duro por seu povo". Muito orgulhoso de sua coleção, Suárez não vende as fotografias. No entanto, a crise econômica atingiu o país com tanta força que, quando um turista lhe ofereceu US$ 100 por uma imagem de seu ídolo comunista, sentiu que tinha poucas alternativas. — É preciso viver — diz. 'Fidel já não está aqui' Para muitos cubanos, as dificuldades atuais refletem a ausência do homem que comandou Cuba durante quase meio século e morreu há uma década. — Fidel já não está aqui e nem todo mundo tem a capacidade que Fidel tinha —afirma Rogelio Valdivia, funileiro e pintor de geladeiras que mantém uma oficina em Havana Velha. No ano de seu centenário, encontrar uma imagem de Fidel Castro nas ruas de Cuba é cada vez mais difícil, e não apenas porque uma lei aprovada após sua morte proibiu a construção de monumentos em sua homenagem ou o uso de seu nome para batizar instituições públicas. Os grandes painéis com seu rosto desapareceram pouco a pouco, vítimas do tempo e da deterioração. Bloqueio total de combustíveis mergulha Cuba em sua pior crise energética recente 1 de 20 Já não há mais gasolina nos postos oficiais e no mercado negro o combustível é comercializado a US$ 9,00 o litro. Foto Yan Boechat 2 de 20 Mulher observa prateleiras vazias de uma farmácia na região central da capital cubana. Foto Yan Boechat X de 20 Publicidade 20 fotos 3 de 20 Moradores do centro de Havana percorrem as bodegas, mini-mercados estatais, em busca de suprimentos básicos a preços subsidiados. Foto Yan Boechat 4 de 20 Mesmo em meio às ameaças de colapso, cubanos seguem buscando meio de encontrar diversão e não suspenderam sequer as festas de 15 anos, extremamente populares no país. Foto Yan Boechat X de 20 Publicidade 5 de 20 Moradores do centro de Havana percorrem as bodegas, mini-mercados estatais, em busca de suprimentos básicos a preços subsidiados. Foto Yan Boechat 6 de 20 Com agravamento da crise, igrejas evangélicas neo-petencostais ganham força entre cubanos prometendo intervenção divina sobre a crise que fustiga o país. Foto Yan Boechat X de 20 Publicidade 7 de 20 Com agravamento da crise, igrejas evangélicas neo-petencostais ganham força entre cubanos prometendo intervenção divina sobre a crise que fustiga o país. Foto Yan Boechat 8 de 20 Com agravamento da crise, igrejas evangélicas neo-petencostais ganham força entre cubanos prometendo intervenção divina sobre a crise que fustiga o país. Foto Yan Boechat X de 20 Publicidade 9 de 20 O Malecón, grande molhe que protege Havana do mar, ainda é fonte de diversão para os segmentos mais pobres da população. Foto Yan Boechat 10 de 20 Mesmo com a pior crise que o país enfrenta em décadas, os serviços de educação e saúde seguem operando em Havana, como essa escola de boxe em Havana Vieja. Foto Yan Boechat X de 20 Publicidade 11 de 20 Havana tem registrado apagões constantes por conta da escassez de combustível causada pelo bloqueio americano, que há mais de um mês não permite a entrada de petróleo na Ilha. Foto Yan Boechat 12 de 20 Com a crise de combustíveis que afeta o país, há cada vez menos carros nas ruas de Havana. Foto Yan Boechat X de 20 Publicidade 13 de 20 Sem combustível para abastecer os caminhões, serviços públicos essenciais, como a coleta de lixo, se tornam cada vez mais raros. Foto Yan Boechat 14 de 20 Com a crise de combustíveis que afeta o país, há cada vez menos carros nas ruas de Havana. Foto Yan Boechat X de 20 Publicidade 15 de 20 Sem combustível para abastecer os caminhões, serviços públicos essenciais, como a coleta de lixo, se tornam cada vez mais raros. Foto Yan Boechat 16 de 20 -Sem combustível para abastecer os caminhões, serviços públicos essenciais, como a coleta de lixo, se tornam cada vez mais raros. Foto Yan Boechat X de 20 Publicidade 17 de 20 Crianças brincam em um parque infantil em ruínas que também serve de lixeira comunitária no centro de Havana. Foto Yan Boechat 18 de 20 Sem combustível para abastecer as usinas térmicas de energia, boa parte de Havana fica às escuras em várias partes do dia e da noite. Foto Yan Boechat X de 20 Publicidade 19 de 20 O Malecón, grande molhe que protege Havana do mar, ainda é fonte de diversão para os segmentos mais pobres da população. Foto Yan Boechat 20 de 20 avana tem registrado apagões constantes por conta da escassez de combustível causada pelo bloqueio americano, que há mais de um mês não permite a entrada de petróleo na Ilha. Foto Yan Boechat X de 20 Publicidade Com escassez, cubanos voltam a andar a pé e ruas são tomadas por lixo e esgoto Em sua oficina, entre paredes rachadas e ferramentas de trabalho, Valdivia ergueu uma espécie de santuário dedicado ao líder revolucionário. — Nasci na revolução e, por meio dela, consegui encontrar meu caminho — diz este autodeclarado "fidelista" de 54 anos. Moradores da ilha se lembram de Castro como o homem que conduziu Cuba por diversas crises: invasões apoiadas pelos Estados Unidos, o embargo, tentativas de assassinato e as duras privações provocadas pelo colapso da União Soviética, principal aliada e benfeitora do país. Muitos dos que apoiaram Castro estão hoje entre os mais atingidos pela crise. Uma delas é Ángela Gutiérrez, de 86 anos, que afirma estar "decepcionada" com os rumos de Cuba. "Por que cortam tanto a luz? Estão acabando" com a vida das pessoas, reclama, depois de percorrer várias barracas de alimentos e vegetais sem conseguir comprar nada devido aos preços elevados. 'Responsável pelo desastre' Gutiérrez pertence à geração que cresceu sob a liderança de Castro e se beneficiou do acesso gratuito à saúde e à educação. Hoje, considera que essas conquistas mal sobrevivem. Para outros, os problemas de Cuba não remetem à ausência física de Castro, mas ao legado que deixou. Manuel Cuesta, historiador de 63 anos e opositor político, lembra que, durante sua juventude, via Fidel como "o redentor" que havia transformado Cuba no país que aspirava ser, mas essa imagem "foi se deteriorando com o tempo", à medida que a realidade da vida na ilha se distanciava das promessas da revolução. Hoje, acredita que a deterioração das condições de vida levou muitos cubanos a ver Fidel Castro como o "responsável original por este desastre nacional". Mulher passa por cartaz de Fidel Castro com a frase “Morte ao invasor”, em Havana, em 13 de março de 2026; no mesmo dia, Cuba confirmou conversas recentes com os EUA — Foto: Yamil Lage/AFP Condições complexas Em uma Cuba onde "seguir Fidel é como uma religião", ser opositor foi durante anos "uma condenação absoluta ao ostracismo", afirma o dissidente. Hassan Pérez, historiador, ex-dirigente estudantil e colaborador próximo de Castro, reconhece que o centenário chega "nas condições mais complexas que se poderia imaginar". O pacto social construído pela revolução, afirma, "se deteriorou" nos últimos anos. Durante décadas, Cuba ofereceu proteção social em troca de uma rígida disciplina política. Muitos cubanos se perguntam agora se esse acordo continua vigente. Ainda assim, o afeto por Castro persiste entre parte dos cubanos, mesmo enquanto a vida cotidiana se deteriora rapidamente. Mildred Barreto, auxiliar de limpeza de 66 anos, continua chamando-o de "nosso comandante". Mas admite que a vida na Cuba de hoje é uma luta constante. — A gente passa por muitas dificuldades. Com nosso comandante, não.
Cuba celebra centenário de Fidel Castro em crise, sob pressão dos EUA e dividida diante do legado do líder da Revolução
Na ilha, que enfrenta escassez de combustível e diversos apagões devido ao bloqueio de petróleo pelos governo Trump, moradores se dividem entre responsabilizar 'o comandante' e afirmar que situação não seria a mesma se ele ainda estivesse no poder










