É preciso parar de buscar em tudo alguma antiga referência, como se toda arte fosse uma cópia malfeita de algo que alguém com mais de 50 anos já ouviu 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Aprendi que crítica se faz com linguagem direta, sem figuras de linguagem nem margem para interpretações. — Foto: reprodução Uma pena a crítica musical estar em franco processo de derretimento. Confesso que aprendi muito sobre mim, sobre os artistas e sobre alguns colegas críticos quando todos fazíamos análises musicais para serem lidas nos grandes jornais com algum grau de importância (às vezes, até um tanto exagerada). Nunca imaginei que um texto sobre um disco de uma banda de rock nacional mineira dos anos 1990 teria tanta importância para alguém até o dia em que o vocalista da tal banda descobriu o telefone (fixo!) de minha mesa na redação do jornal e ligou para esculhambar a mim e algumas gerações de antepassados. Não entendi nada. Desliguei o telefone, reli a crítica e segui sem entender. Eu só havia feito elogios, mas ele achou que todos fossem sarcasmos travestidos de simpatia. Aprendi que crítica se faz com linguagem direta, sem figuras de linguagem nem margem para interpretações. Mesmo um artista, teoricamente versado em poesia, poderia ter a compreensão de uma samambaia diante de um texto comum. Anos depois resolvi ser duro, em linguagem direta, com um disco dos Titãs. “Volume 2”, de 1998, que hoje até gosto mais do que gostei naqueles tempos, me pareceu uma tentativa desonesta da banda e da gravadora de seguirem vendendo o que o anterior, “MTV Acústico”, também com releituras, fez o grupo vender. No dia seguinte à publicação, o empresário mandou um fax para a direção do jornal pedindo minha cabeça. O jornal não cedeu, mas orientou que eu tomasse cuidado. Jogar o jogo dos gigantes não era para qualquer menino de 25 anos que chegava achando que mudaria o mundo com uma caneta. Voltei a falar com os Titãs várias vezes e senti grandeza em Tony Bellotto e Paulo Miklos. Eles sabiam bem o papel de cada um naquele tabuleiro. A crítica musical ensina a um jovem algo que as gerações que nunca foram expostas a ela podem não aprender. Como leitor, lembro de minha revolta ao ler um crítico acabar com um show de Paul McCartney. Mas seus argumentos eram tão bons que terminei odiando o crítico por sua capacidade de me deixar sem palavras. Hoje, se escrevo algo que desagrade aos fãs de uma banda de K-pop, preciso fechar minhas contas nas redes sociais para evitar seus ataques coordenados em massa. Uma geração que cresce ouvindo “sim” a tudo adoece por não conhecer a riqueza do contraditório. Há coisa de um mês decidi voltar a escrever sobre novos artistas, e lá veio a crítica me ensinar mais uma: o tempo faz a contemplação ser substituída pela comparação. É preciso parar de buscar em tudo alguma antiga referência, como se toda a arte fosse uma cópia malfeita de algo que alguém com mais de 50 anos já ouviu. Perder a capacidade da contemplar o novo é perder um pouco da vida.