O jogo é dizer mais com menos. Economizar palavras, que, em excesso, atrapalham a eficiência e o valor daquelas indispensáveis 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Carlos Drummond de Andrade: escrever é cortar palavras — Foto: Foto de Alberto Jacob / Agência O Globo - Negativo : 84-13545 Faço muita coisa, sempre fiz, umas melhores e outras piores. Letras de música, biografias, romances, ensaios, produção e direção de discos e shows, palestras, teatro musical, programas de TV, jornalismo cultural, curadoria musical, redes sociais, mas, quando me perguntam o que mais gosto de fazer, com certeza é escrever. Todas essas atividades sempre me deram muito prazer, mas nenhuma delas deu tanta sensação de liberdade como a escrita, especialmente a ficção. A tela recebe tudo e tudo passa a existir. Você pode inventar um mundo, uma história, uma pessoa, um bicho ou um espírito, e, se estiver bem escrito, o leitor vai acreditar. É este o objetivo básico. E dominar a ferramenta, a linguagem e a clareza é fundamental, é o que dá segurança e solidez para a mente voar. O problema é quando tudo vai bem, mas de repente você não consegue ir adiante. Por mais que se empenhe, não consegue desembaraçar um nó criativo. Horas, dias, semanas, tentativa e erro, branco total. Sofrimento diante da fraqueza e da impotência. É o preço da liberdade: ninguém pode te ajudar. Só você pode resolver. E acaba resolvendo, bem ou mal. Acredito no poder da palavra, das ideias, das sensações e dos sentimentos que elas expressam. Por isso, não se pode abusar delas. Desde que comecei a escrever profissionalmente tenho gravado na memória a máxima atribuída a Carlos Drummond de Andrade: “Escrever é cortar palavras.” O jogo é dizer mais com menos. Economizar palavras, que, em excesso, atrapalham a eficiência e o valor das que são indispensáveis, assim como o barulho prejudica a música. E o ruído, a fala. Escrever não ficção não tem esses perigos, mas não dá a vertigem da liberdade. Os fatos comandam. O amor à verdade. A busca do real. Numa biografia, o grande trabalho é fazer pesquisas, entrevistas, e coletar informações. Depois, escrever é puro prazer. Contar uma história que você já sabe o final. Escrever também pressupõe privacidade e paz para se concentrar. Se possível, com uma vista bonita. Há quem consiga escrever no meio do barulho e de um monte de gente, como nas redações dos jornais, onde trabalhei muitos anos. Agora não, preciso de silêncio e isolamento. Até música, que eu amo e muita gente gosta de ouvir ao fundo para escrever, me atrapalha. A única exceção permitida é um gato, com sua elegância silenciosa, demonstrando afeto e algum desprezo, ainda que às vezes deite sobre o teclado. Amo minhas outras atividades, é ótimo trabalhar em equipe, mesmo com os perrengues habituais de onde há muita gente junta, porém em compensação tem muita gente para ajudar, mas para escrever você não precisa de ninguém, nem de produção, licença, patrocínio, músicos, atores, técnicos, equipamentos, nada, só de um laptop, ou mesmo papel e lápis. Há escritores que dominam o computador, mas preferem escrever à mão, como Mario Vargas Llosa, para dar tempo de as ideias chegarem ao papel. A grande graça de escrever é poder se comunicar, se fazer entender, para divertir, alegrar, informar e emocionar as pessoas.
O poder da escrita
O jogo é dizer mais com menos. Economizar palavras, que, em excesso, atrapalham a eficiência e o valor daquelas indispensáveis











