Comecei a pesquisar música popular há quase 25 anos. No início dos anos 2000 se contava nos dedos os livros, filmes e peças de teatro sobre artistas de nossa música. Hoje em dia, e acho que começo a ficar velho quando digo "hoje em dia", há uma grande produção sobre a música popular. A ponto de mesmo o mais cuidadoso analista se perder diante do manancial de obras.

Diante da quantidade de produtos, é preciso filtros, especialmente em relação aos documentários, produto privilegiado pelo mercado de streaming. Faz-se necessário diferenciar os que querem apenas homenagear um artista dos que de fato querem contribuir para o debate musical, aprofundar questões e trazer novas perspectivas, inovando de alguma forma.

Este mês foram lançados dois documentários no Globoplay que buscam ser apenas homenagens aos respectivos artistas. O primeiro é "Anos 90: A Explosão do Pagode", dos diretores Emílio Domingos e Rafael Boucinha. É uma obra que quer apenas rememorar o sucesso de bandas como Katinguelê, Negritude Junior, Raça Negra, Exaltasamba, Só pra Contrariar, Molejo, Soweto e Karametade no fim do século passado.

Apesar do tema rico e cheio de polêmicas, o documentário não busca nada além de homenagear os artistas, não esboçando qualquer densidade que acrescente algo à memória daqueles que viveram a década. É um grande apanhado de imagens de arquivo e entrevistas com alguns nomes do gênero. Nesta proposta, faltaram alguns personagens essenciais do passado, como Alexandre Pires, do Só pra Contrariar, Luiz Carlos, do Raça Negra, e Leandro Lehart, do Art Popular.