Contrariando a ideia de que privilegiariam o streaming e as redes sociais, jovens e adolescentes lideram a procura pelas salas de exibição e impulsionam sucessos como ‘Backrooms’ e ‘Obsessão’ 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Amigos Cauã Alves e Diego Soares na sala de cinema esperando o início do filme “A Odisseia”, no Rio — Foto: Marina Calderon / Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Pesquisa da plataforma Fandango revela que 87% dos jovens da Geração Z frequentaram salas de cinema no último ano. Eles lideram a frequência com média de sete visitas anuais. A busca por experiências imersivas e o desejo de desconectar das redes sociais impulsionam o público jovem. O cinema surge como alternativa saudável de socialização e lazer coletivo. Plataformas digitais como o Letterboxd, que saltou para 26 milhões de usuários, estimulam o debate cinéfilo. Os jovens utilizam a internet para criar comunidades e compartilhar opiniões. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO “O cinema está com os dias contados.” “Com streaming e televisões cada vez maiores, quem vai sair de casa para ver um filme?” “Os jovens só querem saber de vídeos curtos na tela do smartphone.” Quem nunca ouviu frases do tipo? Nos últimos anos, a experiência cinematográfica parecia viver a crônica de uma morte anunciada. O streaming mudou a forma de as pessoas consumirem o audiovisual, e a popularização das telas diversificou a experiência de assistir a um filme. É fato. Mas um público tem ajudado a manter vivo o cinema, e justamente aquele que parecia destinado a enterrá-lo: a Geração Z, de jovens nascidos entre 1997 e 2012. Levantamento recente do site Fandango, principal plataforma de venda de ingressos de cinema dos Estados Unidos, apontou que 87% dos Gen-Z assistiram a pelo menos um filme nos últimos 12 meses. Entre os millennials, o índice é de 82%; entre a geração X, 70%; e, entre os baby boomers, 58%. Além disso, a Geração Z vai mais vezes ao cinema do que qualquer outro grupo: em média, sete idas por ano. A expectativa é que as bilheterias americanas cresçam cerca de 10% em comparação com o ano passado, aponta reportagem da Variety, impulsionadas não apenas por blockbusters como “A Odisseia”, “O diabo veste Prada 2”, “Toy Story 5”, “Homem-Aranha: Um novo dia”, “Duna 3” ou “Vingadores: Doutor Destino” (os três últimos ainda inéditos), mas por fenômenos como “Backrooms: um não lugar” e “Obsessão”. — Essa procura é explicada por um combo de fatores. Temos uma demanda crescente por experiências sensoriais e imersivas, em que você busca se isolar da tela pequena e das notificações. Também há uma mudança na forma de socializar, com um declínio no interesse em programas como baladas ou experiências centradas no álcool. O cinema é um ambiente controlado e confortável que permite um entretenimento coletivo — explica Marina Roale, head de pesquisa e sócia da Consumoteca. — O mais importante é que é uma geração muito interessada na construção de repertório. Entende que precisa de conteúdo para ter opinião, fazer parte das conversas. Listas e rankings Roale dá como exemplo o sucesso de plataformas como o Letterboxd, rede social cinéfila em que o usuário pode registrar e comentar os filmes a que assiste, além de criar listas do que quer ver e rankings de obras favoritas. Criada em 2011, a rede foi descoberta pela Geração Z na pandemia. Entre 2020 e 2026, o número de usuários subiu de 1,7 milhão para 26 milhões. A especialista diz que o Letterboxd mostra que os jovens consideram a ida ao cinema uma chance de também trocar ideias com amigo e participar da construção de um senso de comunidade. — Por causa da tecnologia e das redes sociais, ver um filme em casa se torna atividade meio pausada: em algum momento, você para e pega o celular. Não vivo a experiência completa do filme em casa — diz a estudante Cecília Meirelles, de 19 anos, que usa o Letterboxd e tem consumido edits (edições de cenas de filmes em vídeos de poucos segundos, com transições rápidas e muitas vezes acompanhados de trilha sonora pop). Pipoca é um dos motivos que leva Geração Z ao cinema — Foto: Marina Calderon / Agência O Globo Redes como TikTok e Instagram também se posicionam como espaço de conversa e descoberta do cinema. No momento em que “A Odisseia” brilha nas bilheterias mundiais, o TikTok está tomado de vídeos com milhões de visualizações sobre o filme. Há os com informações sobre as filmagens e a tecnologia Imax, os que classificam as melhores atuações e os de fãs se vestindo como na antiga Grécia para ir às sessões. Sócia-fundadora do Grupo Estação, rede de cinemas com três complexos na Zona Sul do Rio, Adriana Rattes destaca que os jovens e adolescentes são ampla maioria em mostras e sessões especiais. — Os jovens, no mundo todo, têm sido os primeiros a acordar da letargia e da massificação provocadas pelas redes sociais e pelos streamings. São eles que estão começando a dizer “bora parar com essa conversa boba de que a vida acontece dentro de um celular”. Estão dizendo “queremos cinema no cinema”. Precisamos entender que cinema temos a oferecer para eles — diz. Para se alinhar ao novo público, o Estação reforçou sua equipe com curadores, produtores e comunicadores jovens, e traçou uma estratégia para as redes sociais focada na conversa com os cinéfilos Gen-Z. ‘Mais legal que assistir em casa’ A Cinemateca do MAM, espaço histórico da formação da cinefilia carioca, viu seu público mudar de faixa etária a partir da pandemia, com muitos jovens em busca de experiências diversificadas, especialmente pela chance de assistir na telona a obras clássicas e raras da sétima arte, muitas vezes exibidas em cópias restauradas ou em 35mm. — Para uma geração que se viu crescentemente cercada por traquitanas digitais, a experiência da tela grande tem não só um sabor de novidade, como traz um alívio, uma pausa, uma linha de fuga, diante do excesso e do controle atuais — aponta Hernani Heffner, gerente da Cinemateca. — O tempo, o tamanho da imagem, a espacialidade do som, o ritual de se deslocar, a possibilidade de se enturmar, tudo em uma sala de cinema concorre para uma experiência diferente, como fruição artística, de lazer ou mesmo um posicionamento político diante da asfixia virtual. ‘Você foca mais’ Na quinta-feira, o GLOBO acompanhou sessões no Cinemark Botafogo, na Zona Sul do Rio, e pôde constatar a forte presença de jovens e adolescentes nas salas de cinema. E os motivos são vários, segundo os próprios Gen-Z. — A gente passa muito tempo no celular, ansioso para ver as coisas. No cinema você foca mais no que está vendo, consome mais cultura — diz a estudante Joana Maia, de 16 anos, que aguardava um grupo de amigos para assistir a “A Odisseia”. Cristóvão José, de 17 anos, e Manuela Alves, de 21 anos, gostam de ir ao cinema para escapar das telas — Foto: Marina Calderon / Agência O Globo A fuga das telas também motiva o casal Cristóvão José, de 17 anos, e Manuela Alves, de 21, que está sempre à procura de alternativas fora de casa. — Assistimos a praticamente todos os filmes em cartaz, cada hora em um cinema diferente. É uma experiência mais imersiva e devia ser mais acessível para que mais pessoas pudessem viver — afirma Manuela. O namorado concorda. — É muito diferente de ver em casa, é uma sensação indescritível — diz Cristóvão. — Não somos muito vidrados em telas, estamos sempre procurando coisas para fazer fora de casa, como ir ao parque. O cinema é isso. A experiência também é o que tira de casa Nina Bastos, de 16 anos, que costuma ir ao cinema com amigos e com a mãe. Fã do “rolê”, ela revela assistir de tudo, independente da qualidade. — Eu adoro comer pipoca e assistir aos filmes novos. Estou com minha amiga, estamos de férias — diz a adolescente. — Vou ao cinema quase todo fim de semana, vou muito com minha mãe. Filme ruim, filme bom, eu vejo tudo. As amigas Nina Bastos e Carolina Salomão, ambas de 16 anos, antes de sessão de "A Odisseia", no Rio — Foto: Marina Calderon / Agência O Globo ‘Gostinho de infância’ O novo longa de Christopher Nolan (e a pipoca) também atraiu ao cinema os amigos Leonardo Macedo e Tarsila Mascarenhas, ambos com 15 anos. — É uma experiência bem mais legal do que assistir em casa. Tem pipoca e tem um sentimento nostálgico, um gostinho de infância — defende Tarsila. O cinema é o programa de férias de Tarsila Mascarenhas e Leonardo Macedo, de 15 anos — Foto: Marina Calderon / Agência O Globo Os dois têm aproveitado o período das férias do meio do ano para se atualizar com os filmes em cartaz. O sentimento de se manter atualizado também move Rafael Viana, de 19 anos, que foi à sessão acompanhado no cinema da mãe e do padrasto. Rafael conta que não vê muita diferença entre assistir a filmes em casa ou na telona, mas que uma coisa ainda faz com que priorize o cinema, em caso de grandes lançamentos: se antecipar aos spoilers. Já Cauã Alves, de 21 anos, que foi com o amigo Diego Soares, conta que já não frequenta tanto o cinema como antigamente. Hoje, prefere assistir a filmes clássicos do que lançamentos, aproveitando mais as ofertas no streaming. Ainda assim, vê o cinema como a melhor alternativa quando a experiência exige ver o filme na tela grande, como é o caso de “A Odisseia”. — Nolan é um dos meus diretores preferidos — diz Cauã, cujo último filme na telona tinha sido “Oppenheimer” (2023), também do diretor britânico. — Eu sou uma pessoa um pouco mais fria sobre essa sensação de ver todo mundo junto, de vibrar junto. Mas, quando é um lançamento assim, como ‘A Odisseia”, não tem jeito, eu venho assistir. Sucessos recentes entre a Geração Z O cinema contou com alguns exemplos de filmes que brilharam nas bilheterias muito pela procura dentre os Gen-Z nos últimos dois anos. Confira alguns dos principais exemplos. Inde Navarrette e Michael Johnston no terror "Obsessão" — Foto: Divulgação ‘Um filme Minecraft’. No ano passado, o longa de Jared Hess inspirado em game de sucesso faturou mais de US$ 960 milhões globalmente, muito alavancado pelo público jovem. Somente no Brasil, o longa estrelado por Jack Black e Jason Momoa vendeu 5,4 milhões de ingressos.‘Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba — Castelo infinito’. O anime dirigido por Haruo Sotozaki foi outro fenômeno entre os mais jovens em 2025, quando faturou US$ 793 milhões nos cinemas mundiais.‘Backrooms: um não lugar’. Em 2026, o que funcionou não foram apenas filmes feitos para a Geração Z, mas feitos por nomes da geração. É o caso do terror dirigido por Kane Parsons, de 21 anos. Inspirado em lenda urbana contemporânea nascida no Reddit, “Backrooms” faturou 387 milhões com um orçamento de apenas US$ 10 milhões. O filme reestreou no Brasil na quinta-feira, e com 15 minutos a mais.‘Obsessão’. Feito mais impressionante conseguiu Curry Barker, de 26 anos, com o terror estrelado por Inde Navarrette e Michael Johnston. Orçado em US$ 700 mil, o filme já faturou US$ 443 milhões nas salas de cinema.
Entenda por que a Geração Z está 'salvando' o cinema
Contrariando a ideia de que privilegiariam o streaming e as redes sociais, jovens e adolescentes lideram a procura pelas salas de exibição e impulsionam sucessos como ‘Backrooms’ e ‘Obsessão’







