Profissionais com obras bem-sucedidas desafiam crenças sobre formação de talentos e estúdios tradicionais: 'Exemplo de sonho que deu certo' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Renate Reinsve em cena do filme 'Backrooms: um não lugar' — Foto: Divulgação Com uma ideia na cabeça e um computador na mão, jovens cineastas não precisam nem mais sair de casa para colocar seus projetos na vitrine. Na última década, vários talentos têm sido pescados de plataformas como o YouTube por grandes estúdios. Nomes como David F. Sandberg (“Quando as luzes se apagam”, 2016), Danny and Michael Philippou (“Fale comigo”, 2022, e “Faça ela voltar”, 2025), e o brasileiro radicado em Los Angeles Joe Penna, conhecido pelo canal MysteryGuitarMan, que fez a transição da plataforma de vídeos para o cinema ao dirigir o longa “Ártico” (2019), são alguns deles. Este ano, porém, alguma coisa aconteceu. De forma diferente dos antecessores, dois filmes completamente idealizados por jovens diretores egressos da plataforma de vídeos mais popular do mundo se tornaram fenômenos robustos de bilheteria: “Backrooms”, de Kane Parsons, e “Obsessão”, de Curry Barker. Cinema Odeon, 100 anos: veja imagens da histórica sala de cinema carioca 1 de 11 Cinema Odeon, no Centro do Rio, faz 100 anos — Foto: Marcelo Theobald 2 de 11 Cinema Odeon, no Centro do Rio — Foto: Arquivo O GLOBO X de 11 Publicidade 11 fotos 3 de 11 Lançamento do filme "O exorcista" no cinema Odeon, no centro do Rio — Foto: Arquivo O GLOBO 4 de 11 Cinema Odeon, no Centro do Rio — Foto: Otávio Magalhães X de 11 Publicidade 5 de 11 Cine Odeon, no Rio, com fila na porta para assistir a “E.T. O extraterrestre” (1982) — Foto: Hipólito Pereira / Agência O Globo 6 de 11 Luana Piovani e Roman Polanski em pré-estreia de "O pianista", no Cine Odeon, durante o Festival do Rio de 2002 — Foto: Ana Branco / Agência O Globo X de 11 Publicidade 7 de 11 Salão do Cine Odeon, no Rio, em 2002 — Foto: Fábio Seixo 8 de 11 Diretor Marcelo Gomes e equipe de "Cinema, aspirinas e urubus", no Cine Odeon, durante o Festival do Rio, de 2005 — Foto: Carlos Ivan X de 11 Publicidade 9 de 11 Cine Odeon, na Cinelândia, em 2015 — Foto: Fernando Quevedo / Agência O Globo 10 de 11 Fernanda com a mãe na pré-estreia de "Ainda estou aqui" no Odeon, em outubro de 2024 — Foto: Alexandre Cassiano X de 11 Publicidade 11 de 11 Sessão do Festival do Rio 2025 no Cine Odeon — Foto: Divulgação / Claudio Andrade Espaço é o último na Cinelândia, centro do Rio, onde, no passado, houve oito salas de cinema O filme de Parsons custou cerca de US$ 10 milhões e arrecadou, até a semana passada, cerca de US$ 262 milhões globalmente, tornando-se a maior bilheteria da história da produtora e distribuidora americana A24. Já Curry garantiu ao estúdio Blumhouse a quantia de US$ 286 milhões no mercado mundial. Um feito notável para um filme que custou pouco mais de US$ 700 mil. Inde Navarrette e Michael Johnston no terror "Obsessão" — Foto: Divulgação Os resultados despertaram o interesse da imprensa especializada, que passou a discutir se criadores formados na internet estariam inaugurando uma fase mais otimista para Hollywood. Tudo por conta dos números que apontam uma queda significativa no público das salas desde a pandemia de Covid-19 no início da década. Além disso, a venda global de ingressos caiu 8,8% em 2024 na comparação com 2023, de acordo com dados apresentados pelo Observatório Europeu do Audiovisual durante o Festival de Cannes deste ano. A crítica de cinema do GLOBO Mariane Morisawa entra na discussão apontando que a internet tem sido um território para descobertas de novos talentos para a indústria há algum tempo, e era apenas uma “questão de tempo” para que o cinema também fizesse tal movimento. Mas pondera que praticamente todos estes novos realizadores têm investido em filmes de terror. — São produções mais baratas e que rendem bastante porque o gênero tem um público razoavelmente fiel — diz a crítica. Os vencedores do Oscar 2026 1 de 24 Amy Madigan ganha o Oscar de melhor atriz coadjuvante por 'A hora do mal — Foto: Patrick T. Fallon / AFP 2 de 24 A animação 'Guerreiras do K-Pop' venceu o Oscar de Melhor Animação — Foto: Patrick T. Fallon / AFP X de 24 Publicidade 24 fotos 3 de 24 Kate Hawley aceita o prêmio de Melhor Figurino por "Frankenstein". — Foto: KEVIN WINTER 4 de 24 Jordan Samuel, Mike Hill e Cliona Furey recebem o prêmio de Maquiagem e Cabelo por "Frankenstein". — Foto: KEVIN WINTER X de 24 Publicidade 5 de 24 Maciek Szczerbowski e Chris Lavis aceitam o prêmio de Melhor Curta-Metragem de Animação por "A Garota Que Chorava Pérolas". — Foto: KEVIN WINTER 6 de 24 Cassandra Kulukundis vence o Oscar de Melhor Direção de Elenco por "Uma batalha após a outra" — Foto: Patrick T. Fallon / AFP X de 24 Publicidade 7 de 24 A categoria Melhor curta Live Action teve um empate: "Os cantores" e "Duas pessoas trocando saliva" — Foto: Patrick T. Fallon / AFP 8 de 24 O ator Sean Penn (à esquerda) em cena do filme 'Uma batalha após a outra' e o agente policial dos EUA Greg Bovino — Foto: Divulgação e Stephen Maturen/Divulgação X de 24 Publicidade 9 de 24 Paul Thomas Anderson conquista o Oscar de melhor roteiro adaptado por "Uma batalha após a outra" — Foto: PATRICK T. FALLON / AFP 10 de 24 Ryan Coogler aceita o prêmio de Melhor Roteiro Original por "Sinners". — Foto: KEVIN WINTER X de 24 Publicidade 11 de 24 Tamara Deverell e Shane Vieau aceitam o prêmio de Melhor Direção de Arte por “Frankenstein”. — Foto: KEVIN WINTER 12 de 24 Eric Saindon, Richard Baneham, Daniel Barrett e Joe Letteri aceitam o prêmio de Melhores Efeitos Visuais por "Avatar: Fogo e Cinzas". — Foto: PATRICK T. FALLON X de 24 Publicidade 13 de 24 Joshua Seftel, Gloria Cazares, Conall Jones e Steve Hartman aceitam o prêmio de Melhor Curta-Metragem Documentário por "All the Empty Rooms". — Foto: KEVIN WINTER 14 de 24 David Borenstein aceita o prêmio de Melhor Documentário por "Mr. Nobody Against Putin". — Foto: KEVIN WINTER X de 24 Publicidade 15 de 24 Ludwig Göransson aceita o prêmio de Melhor Trilha Sonora Original por "Pecadores". — Foto: KEVIN WINTER 16 de 24 Gareth John, Gwendolyn Yates Whittle e Juan Peralta aceitam o prêmio de Melhor Som por "F1". — Foto: PATRICK T. FALLON X de 24 Publicidade 17 de 24 Andy Jurgensen aceita o prêmio de Melhor Montagem por "One Battle After Another". — Foto: PATRICK T. FALLON 18 de 24 Diretora de Fotografia de "Pecadores", Autumn Arkapaw se torna a primeira a mulher a ganhar o prêmio de Melhor Fotografia — Foto: KEVIN WINTER X de 24 Publicidade 19 de 24 EJAE aceita o prêmio de Melhor Canção Original por "Golden" em "KPop Demon Hunters". — Foto: KEVIN WINTER 20 de 24 'Valor sentimental' supera 'O agente secreto' e ganha o Oscar 2026 de melhor filme internacional — Foto: Patrick T. Fallon / AFP X de 24 Publicidade 21 de 24 Paul Thomas Anderson conquista o Oscar de melhor diretor. — Foto: PATRICK T. FALLON / AFP 22 de 24 Michel B. Jordan leva o Oscar de Melhor Ator — Foto: Patrick T. Fallon / AFP X de 24 Publicidade 23 de 24 Jessie Buckley aceita o prêmio de melhor atriz por "Hamnet" — Foto: PATRICK T. FALLON 24 de 24 "Uma batalha após a outra" conquista o Oscar de Melhor Filme — Foto: PATRICK T. FALLON / AFP X de 24 Publicidade Confira quem levou a estatueta para casa Filippo Cordeiro, roteirista e diretor de ficção da produtora Formata, de São Paulo, ressalta que o terror é um gênero que tende a funcionar melhor como uma experiência coletiva, daí a presença forte do público nas salas. — Ninguém assiste a filme de terror sozinho — diz o executivo. — Tanto que muitos dos filmes que têm bilheterias gordas não vão tão bem no streaming. Público certo “Backrooms” surgiu a partir de uma mania de internet. Fotos dos chamados “lugares liminares”, como shopping centers e aeroportos, geralmente cheios de gente, começaram a ser retratados totalmente vazios em imagens aleatórias na web. Os comentários nas redes relatavam uma certa sensação de desconforto diante de tais imagens, o que motivou ainda mais postagens de milhares de pessoas ao redor do mundo. Em 2022, o então adolescente de 16 anos Kane Parsons resolveu fazer um curta-metragem sobre o tema e postá-lo no YouTube. O sucesso do curta levou Kane a expandir a ideia em uma série de vídeos que, ao todo, já ultrapassa 34 milhões de visualizações. Foi o suficiente para que a A24 o convidasse a dirigir um longa baseado no curta. Os números da bilheteria podem até confirmar que o público conquistado nas redes compareceu, mas talvez haja outras explicações para o fenômeno. — Tem uma coisa que aprendi por experiência própria: a audiência não migra da internet para os cinemas ou para a TV. Nós já vimos casos de influenciadores que fazem sucesso nas redes, mas fracassam na TV, por exemplo — diz o roteirista Ian SBF, um dos criadores dos portais de humor Anões em Chamas e Porta dos Fundos, ambos com retumbante sucesso no YouTube, além de ser o diretor do longa “A própria carne”, produzido em parceria com o site Jovem Nerd no ano passado. Ainda assim, Ian ressalta que existe uma renovação de público em curso. E isso não se limita ao mercado americano e europeu. — Pessoas da minha geração cresceram querendo ser o Fernando Meirelles, o Scorsese... essa garotada que está chegando tem outros hábitos de consumo audiovisual. Basta ver que a audiência do YouTube já superou a da TV aberta, por exemplo — diz o cineasta, citando os rankings do Kantar Ibope que atestam que o YouTube vem liderando a audiência nos streamings disponíveis no Brasil. O que vem por aí Tais mudanças nos hábitos de consumo podem ajudar a compreender a busca das produtoras por realizadores que “falem a língua” dos novos públicos. Ainda assim, nem todo integrante da geração Z compra a ideia da “renovação” como um todo. — Também se trata de um movimento midiático, para incensar o nome de um novo diretor, ainda que eu também ache que exista uma aposta em novas vozes — pondera o estudante Will Tonon, que aos 23 anos cursa Cinema na Universidade Estadual de Goiânia e posta no canal “Adorável Cinéfilo” suas críticas e os curtas que produz. — Na faculdade, o caso do Kane virou assunto obrigatório como exemplo de um sonho que deu certo. Na última semana, “Backrooms” e “Obsessão” foram batidos por “O Dia D”, de Steven Spielberg, que liderou as bilheterias, arrecadando mais de US$ 90 milhões. Mas os longas não saíram do radar, ocupando o segundo e o terceiro lugar, respectivamente. — Muitos destes filmes acabam ganhando força com o boca a boca — diz Cordeiro. Os números parecem confirmar a hipótese. “Obsessão”, por exemplo, mostrou um crescimento de público de 39% entre a semana de estreia e a segunda semana de exibição. Filippo Cordeiro lembra, no entanto, que ainda é cedo para cravar uma real renovação em Hollywood, reforçando que não faz muito tempo que “Oppenheimer” (2023), de Christopher Nolan, beirou o patamar de US$ 1 bilhão de arrecadação, tornando-se a maior bilheteria do diretor fora da franquia “Batman”. Aparentemente, ainda vai levar tempo para que a nova geração assuma as rédeas do business do cinema no maior mercado do planeta. — É comum que a indústria pegue esses novos diretores e os convide a dirigir filmes de grande orçamento, por exemplo, nos quais eles não terão tanta liberdade quanto tiveram em seus projetos pessoais — lembra Mariane. O problema é que Kane Parsons já declarou ao site The Wrap que não tem interesse em dirigir nada como “Star Wars” ou “Star Trek”, reforçando que só pensa em liderar os seus projetos originais. Palavras fortes para quem acabou de começar a brincar de gente grande. — Só o tempo dirá — diz Mariane.