Há uma experiência que a música clássica exige e que o mundo contemporâneo já quase não tolera: a de esperar. Não a espera ansiosa, aquela que se resolve com um scroll ou com a passagem para o próximo vídeo. A espera como disposição interior, a capacidade de habitar um tempo que não é o nosso, de nos rendermos a uma duração que não controlamos.Um quarteto de Beethoven não se resume. Uma fuga de Bach não se abrevia. Uma sinfonia de Mahler não se acelera sem que algo essencial se perca. A música clássica foi sempre uma arte da demora. E a demora tornou-se, nos nossos dias, uma forma de resistência involuntária. Não se trata de nostalgia. Trata-se de reconhecer que vivemos numa civilização que reorganizou a sua relação com o tempo de uma forma sem precedentes. A atenção deixou de ser uma faculdade que se cultiva e passou a ser um recurso que se gere, fragmentado, monetizado, disputado por algoritmos treinados para capturar o máximo com o mínimo.Seria tentador atribuir este afastamento às transformações tecnológicas das últimas décadas. Mas a verdade é menos confortável: a música clássica já perdia público muito antes da internet e dos algoritmos. Ao longo de todo o século XX, os repertórios foram-se cristalizando em torno dos mesmos cânones, e a distância entre a criação contemporânea e o ouvinte foi-se tornando cada vez mais difícil de atravessar.