A vida é árida. São muitos deveres, muitas obrigações, muitas demandas às quais temos de atender e que nos impedem de, simplesmente, usufruir do tempo, das nossas fantasias, das canções que passam pelo ar. Já usei este espaço, em outra ocasião, para falar sobre o agradável refúgio que a música nos proporciona. Trata-se de um dos melhores antídotos contra a tristeza, mesmo quando a composição parece triste. Se é capaz de nos comover, a música também agita e aquece nosso coração.
Outro importante elixir para aumentar nosso gosto pela vida é a poesia, que tem sido minha fiel companheira desde a juventude. Sei de cor alguns poemas de grandes autores brasileiros. O mais longo talvez seja Passagem da Noite, de Carlos Drummond de Andrade, um de meus poetas favoritos, com seus 40 versos distribuídos em quatro estrofes. O primeiro trecho já é arrebatador para qualquer um que desperte de sonhos intranquilos:
É noite. Sinto que é noite/ não porque a sombra descesse/ (bem me importa a face negra),/ mas porque dentro de mim,/ no fundo de mim, o grito/ se calou, fez-se desânimo./ Sinto que nós somos noite,/ que palpitamos no escuro/ e em noite nos dissolvemos./ Sinto que é noite no vento, noite nas águas, na pedra.










