A discussão sobre o endividamento do governo federal tem ignorado um ponto-chave do problema, que é a dificuldade que o Banco Central tem tido de levar a inflação para o centro da meta de 3%. Se o IPCA continuar rondando o teto de 4,5%, a taxa Selic permanecerá elevada e influenciará o custo de rolagem da dívida do Tesouro Nacional.PUBLICIDADEHoje, metade da dívida pública é atrelada à Selic, e o Tesouro pediu autorização para emitir ainda mais papéis indexados à taxa básica de juros. Essa é uma anomalia que está se agravando neste mandato do presidente Lula. De forma simplificada, com a inflação na meta, os juros caem e melhoram o custo de rolagem da dívida.Na prática, o que acontece no Brasil é que a política fiscal coloca lenha na fogueira da inflação, enquanto a política monetária tenta esfriar a escalada dos preços. Por isso o BC tem reiterado nos seus comunicados a importância de se ter “harmonia” entre as duas políticas.É urgente que o governo federal entenda o seu papel na controle dos preços, mas sem buscar artificialismos ou ideias de curtíssimo prazo Foto: Adobe StockO corte de gastos federais, portanto, tem uma dupla função: diminuir as despesas primárias, mas também reduzir a demanda agregada, que vai permitir a queda da inflação e as despesas financeiras, que ultrapassaram R$ 1 trilhão nos últimos 12 meses. Esse é o raciocínio que tem faltado à equipe econômica do governo Lula, que simplesmente tem culpado os juros pelo aumento do endividamento. A questão, portanto, vai muito além de analisar friamente o resultado primário do governo, que continua deficitário, diga-se de passagem.PublicidadeA solução mais simples, e aparentemente equivocada, é a elevação da meta de inflação para permitir a queda da Selic, como já defenderam integrantes do PT e até alguns economistas do mercado financeiro, uma minoria, é verdade. A única certeza dessa estratégia seria uma forte piora das expectativas, já que os agentes econômicos imediatamente subiriam suas projeções para se adequar ao número mais alto da meta. A profecia seria autorrealizável. Por outro lado, a meta de 3% tem estimulado essa disparada da dívida, porque o Banco Central não consegue derrubar a inflação, mesmo com juros nominais na casa dos 14% a 15%. É urgente que o governo federal entenda o seu papel na controle dos preços, mas sem buscar artificialismos ou ideias de curtíssimo prazo. A equipe econômica tem citado sua “contribuição” ao segurar os preços do petróleo com a guerra do Irã. De fato, isso ajudou a evitar uma disparada que poderia se espalhar pela economia com a indexação dos preços. Mas o que a economia realmente precisa não é de programas nem de ideias novas, é seguir o receituário de cortes de gastos que já deu certo no passado, para reduzir a demanda, aumentar a poupança e permitir ao País crescer de forma sustentável.PublicidadeVale ler tambémO custo do consumismo e do rombo não pode ser ignorado por uma política fiscal responsávelO agro pede previsibilidade, não privilégios, para enfrentar um período desafiadorComo os donos de restaurantes estão lidando com as mudanças radicais que estão ocorrendo no setor
Opinião | Levar inflação à meta é ponto crucial para o equilíbrio das contas públicas e não depende só do BC
Metade da dívida pública já está indexada à taxa Selic, e equipe econômica precisa ajudar no controle dos preços cortando gastos







