Gerando resumoA premissa de que a inteligência artificial pode gerar demissões em massa no mercado de trabalho começa a perder força. Pelo menos esse é o cenário em algumas empresas com maturidade em IA, afirma nova pesquisa sobre futuro do trabalho da consultoria imobiliária JLL, obtida com exclusividade pelo Estadão. O levantamento mostra que 60% dos líderes globais ouvidos planejam aumentar a força de trabalho nos próximos três a cinco anos, em meio a um cenário no qual a IA também deve redesenhar funções e criar novos cargos.PUBLICIDADEA pesquisa entrevistou 2,2 mil executivos de 21 países, incluindo 150 participantes da América Latina. Os líderes brasileiros representam 33% dos respondentes LATAM. Na contramão das previsões que estimavam que o avanço da automação seria uma ameaça para os trabalhadores, os chefes ouvidos não projetam redução na força de trabalho. As empresas mais avançadas na implementação da IA estão mensurando o ganho de produtividade como uma forma de ampliar os negócios, avalia o estudo. “Os líderes percebem essa eficiência como uma alavanca de crescimento e não apenas para redução de custo”, afirma Andreza Silva, líder de Workplace e Change Management da JLL.PublicidadeNo entanto, a extinção de algumas áreas não é descartada pelo estudo. “Isso também é previsto. Porém, esse quantitativo é menor do que as oportunidades que estão surgindo com as novas funções”, pondera Andreza. A pesquisa lista três fatores como os principais motores de mudança que devem impactar o mercado de trabalho global: a reconfiguração de funções, a redução de postos em algumas atividades e o surgimento de novos cargos.Empresa cria cargo específico para implementar a tecnologiaO avanço da tecnologia também cria demandas que não existiam antes. Nas organizações com maior maturidade, cresce também a procura por profissionais ligados à governança de inteligência artificial, segurança cibernética, proteção de dados, análise de dados e gestão de mudança.PublicidadeNo Brasil, por exemplo, 46% dos entrevistados sinalizaram preocupação com regulamentações relacionadas à IA e ao ambiente de trabalho. Essa virada de chave no mercado faz com que aumente a demanda por trabalhadores capazes de conduzir a mudança com IA dentro das organizações. “As empresas, em vez de perderem tempo focando em capacitar os funcionários em uma função muito específica e que não faz parte do negócio, estão buscando parcerias estratégicas para suportar essa demanda”, avalia Andreza Silva. Na Vockan, empresa de tecnologia especializada em ERP e soluções para a indústria de manufatura, o CEO Fabrício Oliveira decidiu criar um novo cargo, o de Chief AI Officer (diretor de inteligência artificial). “No lugar de demitir (pessoas) e só adotar IA, nós fomos em outra direção e utilizamos a tecnologia como copiloto”, diz Oliveira ao referenciar a empresa como “IA and People First”, em tradução livre, IA e pessoas em primeiro lugar. PublicidadeFabrício Oliveira, CEO da Vockan, decidiu abrir vaga para cargo de diretor de IA para implementar a tecnologia na empresa Foto: Felipe Rau/EstadãoSidney Mendes, de 44 anos, acaba de inaugurar a cadeira recém-criada na companhia. Ele encarou um processo seletivo de dois meses, em que disputou com outros 600 currículos para a vaga. Agora o diretor de IA responde diretamente ao CEO. Inicialmente, Mendes será responsável por atuar em todos os setores da empresa, desde nivelamento de conhecimento em IA, projetos, produtividade, área financeira, adoção interna até intermédio com os clientes.Durante o primeiro passo de nivelamento dos funcionários, o treinamento vai apresentar o funcionamento de modelos de linguagem, a elaboração de prompts e a maneira correta de utilizar token conforme o orçamento.“O desafio é criar uma grande base de conhecimento em IA. A ideia é realmente engajar o colaborador para que ele performe melhor no trabalho com a ajuda IA”, avalia Mendes.PublicidadeLeia também Bilionários sabem que o mundo vai acabar se o plano deles der certo, diz escritor Douglas RushkoffO que está por trás da revolta da geração Z contra a inteligência artificial no trabalhoO CEO que planejou a própria sucessão em apenas dois meses após receber diagnóstico de ‘quase morte’PUBLICIDADEA mudança, porém, não significa que todas as funções permanecerão iguais na Vockan. Oliveira prevê uma dança de cadeiras. “Não pensamos em eliminar, mas realocar, sim”, diz. Por outro lado, as equipes também podem crescer com a implementação da IA. Por enquanto, Mendes não tem liderados diretos, mas há possibilidade de incorporar novos profissionais na área, afirma o CEO.A próxima demanda de Mendes é desenvolver um conselho formado por agentes de IA para participar da reunião trimestral da companhia. No total, serão cinco conselheiros dos setores de pessoas, compliance, financeiro e produto. Escassez de mão de obra especializada em IA preocupa líderesHá, no entanto, entraves nessa área. A escassez de qualificação surge como um dos principais obstáculos para a virada de chave na América Latina. Na região, a falta de mão de obra especializada é a segunda maior preocupação, enquanto, no cenário global, ocupa apenas a sétima posição.PublicidadeNo Brasil, 30% dos líderes dizem que a falta de capacitação em IA, análise de dados e tecnologias emergentes pode limitar a mudança. Com isso, a disponibilidade de talento deve influenciar as decisões sobre a localização geográfica e o método de seleção de pessoal.As empresas também estão longe de ter uma estratégia de como usar e mensurar a tecnologia. No contexto local, 58% das organizações ainda estão avaliando opções, testando soluções ou observando a evolução da tecnologia, enquanto 42% estão em estágio de otimização ou uso da IA. Conforme a pesquisa, apenas 15% das empresas estão trabalhando para se adequar às mudanças. No caso das empresas com mais maturidade em IA, há um movimento de preparação diante desse novo cenário. “Os líderes (em companhias maduras) não estão esperando ter uma decisão estratégica da empresa do que exatamente vai acontecer com a mão de obra. Eles já estão trabalhando próximo das áreas (RH e pessoas) que são chaves para esse momento”, afirma Andreza Silva em relação à preparação da mão de obra para as novas funções.Segundo o estudo, apesar da limitação relacionada à dificuldade de encontrar talentos qualificados, o aumento do quadro de funcionários e a redefinição dos cargos seguem como um plano estratégico dos líderes. Vale ler tambémO custo do consumismo e do rombo não pode ser ignorado por uma política fiscal responsávelO agro pede previsibilidade, não privilégios, para enfrentar um período desafiadorComo os donos de restaurantes estão lidando com as mudanças radicais que estão ocorrendo no setor