O ciúme já foi considerado —e, para muitos, ainda é— a prova de que um amor é verdadeiro. Vinícius de Moraes, um romântico incurável na poesia e na vida, imortalizou essa crença ao chamá-lo de "perfume do amor".

A lógica do ciúme é simples: amo e quero o ser amado só para mim. Nesse primeiro ponto, sofro quando descubro que ele tem olhos para outras coisas ou pessoas. Mas também sofro porque perco para um terceiro, deixando de ser "o" escolhido. Nesse nível, o vértice do triângulo é tão ou mais importante do que o objeto amado. Quem não conhece um ex que volta arrependido assim que descobre que tem mais alguém no páreo? Menos interessado na ex-amante do que em competir com um rival real ou imaginário. Assim que ganha a contenda, volta a perder o interesse pela amada.

Questão bem retratada em "Closer", filme de Mike Nichols, de 2004, no qual a relação entre os homens é tão ou mais investida do que a relação deles com as mulheres por quem disputam. O ciumento patológico não aceita não ter controle sobre o desejo feminino, tampouco suporta a sombra do rival, pois ambos põem à prova sua frágil masculinidade.

O ciúme é um afeto presente desde os primórdios da constituição subjetiva, quando cai a ficha de que não somos o único interesse dos cuidadores principais. Afeto dilacerante associado à descoberta de que papais e mamães, de quem dependemos totalmente, têm outros interesses.