Há um detalhe no início de "Lanterna" que o livro inteiro se encarregará de desentranhar: uma lanterna cai e pousa na areia sem fazer barulho.

A protagonista Louisa tem dez anos, está no quebra-mar com o pai numa noite de verão no Japão. A percepção do silêncio dessa queda atravessa a consciência da menina antes que ela a perca para sempre. Mas o problema é que uma criança de dez anos em choque não tem como transformar lampejos sensoriais em uma hipótese amadurecida. Essa dedução leva 40 anos para chegar.

Finalista do prêmio Booker, "Lanterna" é o quinto romance de Susan Choi e chega ao Brasil pela Instante, traduzido por Julia Bussius. É um livro que atravessa seis décadas, quatro países, focaliza cinco personagens e mantém o centro de gravidade num único detalhe físico —uma lanterna que caiu sem fazer barulho.

Serk, coreano nascido no Japão e radicado nos Estados Unidos como professor de engenharia, desaparece numa praia japonesa em 1978. Sua filha Louisa é encontrada na areia, quase morta. Sua esposa Anne, que sofre de esclerose múltipla ainda não diagnosticada, estava imobilizada em casa.

Décadas se passam. Choi usa as ausências como substrato de um romance sobre o que acontece com uma família quando o silêncio, imposto de fora ou escolhido por dentro, substitui o relato.