'Memorial do inverno', do jornalista e escritor paulista Roberto Pompeu de Toledo, apresenta o luto e o envelhecimento sob as mais diferentes abordagens 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O autor Roberto Pompeu de Toledo — Foto: Michel Filho/ 20-5-2015 Em meio à recente enxurrada de livros que apresentam o luto e a velhice sob as mais diferentes abordagens, um deles se destaca, mui curiosamente, por sua extrema leveza, qualidade que não costuma ser associada a essas experiências tão universais e, ao mesmo tempo, pessoais e intransferíveis. Chama-se “Memorial do inverno”, do jornalista e escritor paulista Roberto Pompeu de Toledo. Ao tratar, já no início, com tanta delicadeza da morte da companheira, ele emenda em outro assunto não menos instigante: o envelhecimento, ponto central da obra. Ora comovente sem ser meloso, ora divertido, e sem jamais perder a elegância, Toledo reforça o que dizia o escritor Italo Calvino — para quem a leveza, na literatura, não tem a ver com superficialidade, e sim com dar o justo peso às palavras e às ideias que estão nelas. “A rigor, não há nada de original a dizer sobre morte ou velhice. Não sei por que insisto”, escreve ele. Ainda bem que insistiu. Original é a narrativa de Toledo, que compôs um manual da vida prática para momentos críticos da parte final da existência. Para quem pretende chegar lá, vale ficar de olho. É um prato cheio para reflexões. Mas vamos, primeiro, ao evento que provoca Toledo a escrever o livro. Sem tirar onda de macho-alfa fortão que desdenha as tragédias pessoais, ele conta assim o que aconteceu com ele tão logo a mulher parou de respirar: “Silêncio. O médico saiu do compartimento, estou só, rendido e perdido. Meu amor, meu amor... Coitado, ela costuma dizer, à noite de uma morte, mesmo se fosse uma morte mais do que anunciada, pela idade ou pela doença. Coitada, digo eu agora. Inclino-me para bem junto dela e choro alto, aos arrancos. Coitado de mim. Vou chorar muitas outras vezes, nos dias seguintes, mas alto foi só dessa vez.” ‘Memorial do inverno’, de Roberto Pompeu de Toledo — Foto: Divulgação Era seu segundo casamento, nascido de uma paixonite adolescente que acabou interrompida por 30 anos, retomada com alegria e avançando pela terceira idade, um amor daqueles raros, que não desgrudam — mas o destino não é assim tão poético. Um dia, Maria Isabel adoeceu, o tratamento foi em vão, e ela partiu em poucos meses. Para o companheiro, sobrou o que chama de “sentimento de incompletude”. Seu mundo caiu, mas, com todo amor que a falecida merecia, a vida seguiu. Junto com o luto veio a consciência de que o tempo passa: “Nunca pensei em ficar velho”, escreve ele, aos 77 anos. É como se somente a partir dessa situação limite o escritor tenha se tocado de que a idade chega para (quase) todos. Para além das mortes próximas, perdas menores começam a pipocar com mais evidência: dores nas costas, esquecimentos inexplicáveis, relembramentos em abundância, urucubacas várias... Tudo o que passava meio despercebido agora ganha novo peso, junto com a necessidade urgente de autoconhecimento. ‘Meia-palavra’, de Helio Gurovitz Neste seu primeiro romance, o autor centra a narrativa em um grupo de amigos que compartilham memórias de longa data ao mesmo tempo em que cada um protagoniza seus dramas particulares. Foto: Divulgação ‘Palavras de dentro’, de Guilherme Vale Guilherme Vale transita entre a poesia e a prosa, aproximando literatura, filosofia e psicanálise, sem perder a simplicidade. A obra dialoga com leitores habituados à literatura contemporânea e com aqueles que buscam reflexões sobre o cotidiano. Foto: Divulgação ‘Homem fora da caixa’, de Jairo Bouer O autor propõe uma conversa sobre os desafios do homem de hoje, em um mundo em que antigos modelos de masculinidade já não dão conta das relações, das emoções, da sexualidade, da paternidade, do trabalho e da saúde mental. Foto: Divulgação ‘Pequenos engasgos’, de Alê Motta Alê Motta registra em 38 microcontos seus flagrantes de rua: quem são tais indivíduos, por que estão ali, o que estão tramando? São contos ilustrados e inspirados por 13 fotos que a autora capturou de fachadas, portões e janelas, e nas observações que surgem em meio ao engarrafamento na hora do rush. Foto: Divulgação ‘Reputação em tempos de incerteza’, de Marcos Trindade e Fabiana Ribeiro Marcos Trindade, CEO da FSB Holding, e a jornalista Fabiana Ribeiro analisam como redes sociais e IA transformaram a construção da reputação das empresas. Em meio à desinformação, cancelamentos, chatbots e novas tecnologias, mostram que não há mais narrativas únicas ou manuais capazes de proteger uma marca. Foto: Divulgação Toledo lida com esse novo momento com a lucidez da vida sábia e dá uma pista de como alguém da terceira idade pode lidar com tantas perdas sem ter que se embrenhar em processos esotéricos que demandam tempo... E parece que a vida, nessa fase, não pisa no freio. Impossível não rir e não chorar, diversas vezes, sobre as questões que ocorrem a Toledo nesse processo de envelhescença, como ele diz. Escritor experiente, ele adotou uma narrativa que vai salteando entre tempos passados e presentes, conversas aqui interrompidas são retomadas dois parágrafos depois, sem qualquer embaraço, e assim vai levando o interlocutor para frente, sempre para frente, sem pressa. Nada é pra já. E nem todo mal-estar dura para sempre — tanto que mesmo uma paquera pode surgir, instalar-se e evoluir para algo menos volátil, ainda que à beira dos 80 anos... Pois é isso o que acontece com Toledo e sua “Primeira Amiga”, com quem engata um namoro (com ajudinha, inclusive, de uma crônica do colunista Joaquim Ferreira dos Santos, aqui no GLOBO). É assim que o autor reflete, com sua história, algo que deve ser a tal da paz interior, sem culpas nem medos, do jeito que tem que ser, até quando puder ser. Por último: não que o currículo de Toledo seja imprescindível para que o leitor dê uma chance a este “Memorial do inverno”, mas não custa registrar que ele publicou dois títulos imperdíveis sobre a história de São Paulo: “A capital da solidão” (2003) e “A capital da vertigem” (2015).
Crítica: Surpreendendo pela leveza, narrativa aborda chegada da terceira idade e a perda da companheira
'Memorial do inverno', do jornalista e escritor paulista Roberto Pompeu de Toledo, apresenta o luto e o envelhecimento sob as mais diferentes abordagens







