Quando o DJ e produtor Dennis, criador de inúmeros hits do funk carioca, do sertanejo e até do rap — como Cerol na Mão, Jonathan da Nova Geração, Vai Lacraia, Dança da Motinha, produções do Bonde da Stronda e Tá OK — ouviu da filha do meio, Tília, que ela queria seguir carreira na música, começou uma passagem de bastão — ou melhor, de MPCs e CDJs, os "instrumentos" do DJ. Também pudera: além do pai, a cantora, DJ e streamer é filha de Kamilla Fialho, empresária do mercado musical e responsável, inclusive, por dar o nome de flor à filha. Mas o legado teve seus percalços. Em entrevista ao “Papo.MP4”, quadro de entrevistas em vídeo do GLOBO, Tília fala sobre como passou a lidar com o rótulo de “nepobaby”, a busca por uma identidade própria e a decisão de usar as lives IRL (In Real Life, que mostra o criador no dia a dia) e as redes sociais para mostrar ao público os bastidores da carreira, enquanto Dennis, assumidamente babão, relembra a trajetória de mais de três décadas que ajudou a profissionalizar o funk, consolidar o DJ como artista e dar espaço para a filha seguir carreira semelhante. Confira o bate-papo completo no YouTube. Tília, você se considera uma nepobaby? Com certeza! Falo que não sou uma nepobaby, eu sou a nepobaby. No início, as pessoas usavam para criticar, mas eu resolvi lidar como um elogio. Às vezes, dá um nervoso ser chamada de "filho do ou da", mas entendi que era um processo. Quanto mais ficava preocupada, mais as pessoas faziam esse tipo de comentário. Então, hoje vejo com orgulho, inspiração para construir a minha trajetória. E acho que isso ajudou as pessoas a enxergarem a Tília além da filha. Você fez parte da geração que construiu um legado para o funk carioca, Dennis. O que mudou no que é ser um DJ hoje em dia? Agora é algo glamouroso. Minha própria mãe falava que além de ser DJ, eu precisava ter um trabalho. Nossa remuneração era baixa, mas hoje as pessoas enxergam o DJ como artistas, como alguém que também pode compor, produzir música, show... É arte! Como é explorar as diversas faces profissionais, Tília? Você é DJ, mas também é influencer. Em 2024, foi a única mulher presente no TOP 20 global da categoria IRL (In Real Life) da Twitch, que mostra o cotidiano sem cortes do streamer. Temos que se adequar ao que está acontecendo na nossa geração. Meu pai foi inteligente em perceber que os funks precisavam de videoclipes nos anos 2000, eu percebi que era muito importante para mim fazer as pessoas entenderam que eu também tinha um processo e um trabalho. Mesmo sendo filha do meu pai, as coisas não estavam 100% preparadas para mim. As lives foram um caminho para mostrar os bastidores, uma forma de contar a minha própria história e criar a minha própria comunidade. Quem foi sua inspiração, Dennis? Na minha época, os bailes aconteciam nos clubes. Eu morava no Vila Rosário, conhecido como Pantanal, em Duque de Caxias. Ainda não tinha idade para participar, mas acompanhava as equipes de som montando a aparelhagem, escolhendo o repertório e os discos. Fui muito influenciado pelo DJ Grandmaster Raphael, que era da Furacão 200, que acompanhava pela rádio e pela TV. Quando eu o vi tocar, entendi que era o que queria fazer da vida. Você construiu sua carreira através da cultura funk, que trabalha com o duplo sentido, letras picantes... Como é ver sua filha fazendo essas coisas? D: É meio perturbador. Eu estou há 30 anos fazendo funk e teve uma época que resolvi corrigir as coisas para tentar rebater os estereótipos e as críticas. Sabe quantas músicas viraram hit? Nenhuma! Se pegarmos as músicas em inglês que tocam na rádio, é pior. Tem público para tudo. É muita ingenuidade dos pais, já fomos adolescentes e já fizemos coisas escondidas. T: Para mim é normal. Sempre tive uma relação de amizade com os meus pais e cresci nessa realidade do funk. Eu tenho uma comunicação clara e aberta dentro de casa, não tem tabu nenhum entre a gente. Dennis, você viveu a popularização do funk nos anos 2000, mas agora vemos outras discussões sobre essa cultura, com a CPI dos Pancadões e a Lei anti-Oruam. Como você vê esses movimentos, que você já viveu no passado, se repetindo? D: Existem muitas misturas entre funk, trap... No fim, tudo é cultura urbana que vem da periferia. Até hoje, para algumas pessoas, o que vem da favela é uma afronta: 'Como o funkeiro pode ter uma casa própria e ser meu vizinho?'. Quando você vem da comunidade pobre — falo porque vim de lá — e vence, você não precisa esquecer de onde veio, mas precisa entender onde quer chegar através do acesso que você conquistou. Depois vai lá e ajuda seu amigo de infância. As pessoas podem se aproveitar das fragilidades desse processo de construção de uma carreira. T: Os playboys e as patricinhas, digo por mim mesma, amam funk. Há um ano e meio foquei nas festas de 15 anos, em 2025 foram mais de 50 festas. É muito legal ver que estamos tornando a noite de uma menina muito especial. E, este ano, estamos focando nas festas universitárias, uma experiência muito legal. Eu quero dialogar com todos os públicos. Vocês acreditam que o DJ de funk é mais valorizado atualmente? T: Está mais fácil, comparado a época do meu pai. Mas ser mulher e ter uma equipe feminina torna as coisas diferentes. Me julgo muito na composição, mas adoro me reunir nos campings com os compositores. Gosto de estar em todos os processos e me meto em tudo. D: E isso não é compor? Falar o que você quer colocar nas letras ou não faz parte da composição. Já pode colocar o seu nome nos créditos! Acompanhar o processo e estar com a equipe também faz parte do trabalho. Dennis, a primeira vez que recebeu de direitos autorais veio mais de R$ 50 mil, uma bolada no início dos anos 2000. O que um jovem faz com esse dinheiro? Compra uma casa própria! Aos 16, minha família não tinha dinheiro para pagar aluguel. Com 19, quando ganhei esse dinheiro, foquei em ajudar minha família. As músicas antigas compraram muita fralda e leite para a Tília. Hoje é a música que te banca, Tília? T: Sim! É muito maneiro falar isso. Faz 5 anos que comecei e achei que esse momento nunca chegaria. Em janeiro, faz 2 anos que moro sozinha e pago minhas contas. Mas ainda não ganho com os streamings, ainda... O que faz a minha renda são os shows. D: Sempre falei que o artista precisa entregar um bom show. Ela está construindo isso tudo, me sinto passando o bastão.
Dennis e Tília mostram que uma flor não cai longe do pé | Papo.MP4
Pai e filha falam sobre a evolução do funk, a valorização do DJ e as lições que transformam a herança familiar em construção profissional









