Jovens são atraídos por propostas em dólar e são mantidos sob coação em 'centrais de golpes' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Brasileiros presos em operação no Laos foram atraídos ao país com promessa de salário em dólar e se envolveram em uma teia de golpes virtuais — Foto: Reprodução Em 3 de julho, durante o trabalho, Maria (nome fictício, assim como os demais desta reportagem) foi surpreendida por uma mensagem do filho. João, de 25 anos, estava prestes a embarcar de São Paulo rumo ao Sudeste da Ásia. “Como assim você vai se mudar e nem me abraçou?”, estranhou. O jovem barbeiro justificou que foi chamado às pressas — passagem paga, passaporte na mão — para um emprego com salário em dólar, mas cujo escopo não sabia detalhar por causa de uma “cláusula de confidencialidade” do contrato. Uma semana depois, João e outros 25 brasileiros foram presos numa operação da polícia do Laos contra um dos vários “scam centers” da região — as “fábricas de fraudes”, onde milhares de estrangeiros são coagidos a integrar esquemas cibernéticos que vão de “golpes do amor” a artimanhas de falsos investimentos. A ONG Exodus Road Brasil logo alertou: foram vítimas de tráfico humano. Todos seguem detidos, sem previsão de voltar ao Brasil. Maria ficou sem qualquer informação até o dia 31, quando o Itamaraty confirmou o paradeiro. — Graças a Deus, agora eu sei. Meu filho está preso — diz ela, que temia notícia ainda pior. — Eu via nas novelas, mas não imaginava passar por isso. É uma tortura psicológica. Hoje sou eu chorando, mas quantos filhos estão arrumando a mala para ir nessa viagem? João já havia recebido uma proposta semelhante um ano atrás, mas decidiu aceitar, desta vez, depois que um amigo foi, voltou e o incentivou. O GLOBO conversou com famílias de outros seis detidos na ação. Os relatos são parecidos: jovens que buscavam melhorar de vida convencidos por conhecidos ou pessoas nas redes sociais com ofertas quase irrecusáveis e falsas promessas. Já no exterior, tinham contato restrito com os parentes: diziam, sob coação, apenas estar “bem” ou, no máximo, “cansados” pelas jornadas madrugada adentro. Assim que os policiais entraram no complexo na vila de Buengkhayong, no dia 11, Camila avisou o pai por áudio: “Se eu não falar mais, procura a embaixada”. Irmão dela, Carlos havia viajado uma semana antes para atuar em um call center na Tailândia — ambos foram detido no Laos. — Minha filha foi trabalhar nas Filipinas. Acho que levaram ela à força. Sumiram com os documentos deles. Só 20 dias depois da prisão, liberaram uma ligação. A gente está correndo aqui para trazê-los de volta — diz o pai da dupla. Por meio de um rastreador colocado no celular do irmão, Isabela notou que ele não parou na Tailândia, como disse que faria. Via rota terrestre, o rapaz seguiu ao Camboja e acabou detido na operação no Laos. Jorge relatava trabalhar de domingo a domingo, por até 18 horas seguidas, mas alegava não poder voltar porque precisava “cumprir o contrato” até dezembro. — O que nos tranquilizou um pouco foi que, por duas vezes, ele saiu do complexo e postou fotos da cidade. Nós imaginávamos que ele estava livre para ir e vir, mas não estava — narra Isabela. Para Agenor, postagens como as do irmão de Isabela e do próprio filho, Pedro, serviam para enganar as famílias de que os brasileiros estavam em um “paraíso” e exibir a “oportunidade” a outros. Ele conta que Pedro recebeu um Pix de R$ 2 mil e a promessa, em um contrato falso, de uma remuneração mensal de US$ 2 mil dólares (cerca de R$ 10 mil), com bônus de US$ 500 por assiduidade e comissão de até 5% por desempenho. — Na verdade, era trabalho análogo à escravidão. Até em ligações eram coibidos e monitorados — lamenta. Vítimas são atraídos por promessas de salários altos para trabalharem em centrais de "scammers" — Foto: Reprodução Parentes dos detidos se uniram para cobrar mais apoio do governo federal e urgência na solução do caso. Segundo o grupo, brasileiros que conseguiram contato após a prisão relataram estar há quase um mês dormindo no chão, sem coberta, com as mesmas roupas que vestiam quando foram detidos, sem entender o que dizem os agentes. As refeições teriam apenas arroz e repolho, além de pouca água. ‘Na medida do possível’ A Agenor, a Embaixada do Brasil em Bangcoc disse que o filho “está bem, na medida do possível”, mas ponderou que Pedro não havia autorizado comentários sobre o motivo da prisão. O jovem e os outros 25 brasileiros serão deportados. Para o retorno, deverão pagar multas no Laos pelo tempo em que trabalharam sem autorização do país e arcar com o custo das passagens aéreas. As famílias afirmam não ter condições financeiras para bancar a viagem e pedem o resgate dos detidos como vítimas de tráfico humano. Em resposta a um dos pais, a embaixada orientou os parentes sem recursos a obterem um atestado de hipossuficiência junto à Defensoria Pública da União e solicitarem ajuda do governo para a repatriação. No entanto, não há garantia de que o apoio seja concedido, por depender de disponibilidade orçamentária, e a legislação nacional proíbe que o governo pague multas dos cidadãos. Os brasileiros seguem detidos sem saber o valor da punição, como poderão pagá-la nem a data de retorno. Em nota enviada ao GLOBO, o Ministério das Relações Exteriores informou que vem prestando “a assistência consular cabível, por meio de gestões junto às autoridades laosianas e de fornecimento de orientações aos brasileiros e a seus familiares sobre como proceder, incluindo emissão de documentos”. O Itamaraty afirmou ser impedido de divulgar informações pessoais de cidadãos ou fornecer detalhes dessa assistência. Mas destacou, no texto, o alerta consular divulgado em fevereiro do ano passado que cita a consolidação do Sudeste Asiático como “o principal foco de tráfico de cidadãos brasileiros para exploração laboral” em esquemas e golpes destinados à extorsão de terceiros e ao aliciamento de novas vítimas. “O resgate das pessoas traficadas é altamente complexo”, destaca o alerta, que orienta brasileiros a não aceitarem propostas do tipo na região. “Com o visto vencido, (vítimas) precisarão pagar multa diária pela permanência irregular e obter autorização de saída do país”, acrescenta. O Portal Consular do Itamaraty prevê a defesa dos direitos humanos de brasileiros no exterior e a verificação da possibilidade de orientação jurídica ou psicológica. Mas lista limitações desse apoio, como não poder torná-los “imunes” à legislação migratória de outros países, investigar crimes por contra própria, interferir para libertar brasileiros detidos ou se responsabilizar por despesas. Além dos brasileiros, entre os 122 detidos no Laos havia cidadãos de China, Malásia, Mianmar, Uruguai e Paquistão. O governo e a imprensa locais apontam que, de janeiro ao fim de julho, mais de cinco mil pessoas acabaram presas. ‘Centrais de golpes’ Em abril, uma conferência das Nações Unidas contra o crime organizado transnacional gerou um relatório que estimou o número de pelo menos 300 mil pessoas, de 80 nacionalidades, mantidas sob coação em “centrais de golpes”. O modus operandi depende “fortemente” do tráfico de pessoas, e as novas tecnologias, como a inteligência artificial, favorecem o aliciamento e a sofisticação de golpes, cada vez mais difíceis de rastrear e interceptar. O governo brasileiro identificou os primeiros casos de tráfico humano para a região em 2022, quando emitiu um primeiro alerta, sobre Mianmar. Com o colapso do turismo e do setor de jogos de azar na pandemia de Covid-19, países do Baixo Mekong se tornaram o epicentro global dos “scam centers”. Fronteiras porosas, infraestrutura de energia, resorts vazios e áreas de isenção fiscal, além da corrupção de elites locais, entre os outros fatores, contribuíram para o cenário. Este mês, a Justiça brasileira tornou réus três brasileiros e um chinês por traficarem ao Camboja, em 2022, ao menos 17 pessoas. Na medida em que os governos ficaram pressionados globalmente a reagir a essa indústria, as redes criminosas se espraiaram também para África Ocidental, Oriente Médio e América Central. Stella Scampini, coordenadora da Unidade Nacional de Enfrentamento do Tráfico Internacional de Pessoas e do Contrabando de Migrantes (UNTC) e procuradora regional da República, explica que os “scam centers” são, em geral, dominados por organizações criminosas de origem chinesa. A unidade especializada foi criada em 2024 para fazer frente a desafios do combate aos dois crimes que lhe dão nome, como reduzir a subnotificação e acelerar a cooperação internacional. — Muitas vítimas não se enxergam como vítimas, acham que têm culpa: eu quis, eu fui, eu fiz. Muitas vezes elas depõem na questão trabalhista, para tentar o ressarcimento, mas não na esfera criminal. É um trauma que deve ser respeitado. E, muitas vezes, se pune o crime associado, como o trabalho análogo à escravidão, e se esquece do crime de tráfico humano — avalia Stella. Número incerto de casos Embora a legislação do tema esteja consolidada há uma década e haja uma agenda internacional de enfrentamento, a não punibilidade das vítimas forçadas a cometer crimes não é prevista expressamente no Brasil. Com isso, procuradores costumam se valer de analogias e princípios para evitar a criminalização. Para caracterizar o tráfico e diferenciá-lo de uma participação criminosa voluntária, é preciso que a conduta seja praticada mediante grave ameaça, violência, coação, fraude ou abuso, com alguma finalidade prevista na lei, como servidão, trabalho similar ao escravo ou exploração sexual. A pena vai de quatro a oito anos de prisão e pode ser aumentada caso a vítima seja levada a outro país. Não importa se a vítima concordou com a falsa proposta de trabalho. Sem um sistema unificado de ocorrências, os dados do crime são incertos. O Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas cita que, em 2025, foram 84 casos (44 deles no Camboja). Os desafios também incluem o treinamento de equipes para investigar práticas tecnológicas cada vez mais sofisticadas e apoio à reintegração de pessoas resgatadas. Professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e juiz federal, Carlos Haddad destaca que a escalada dos “scam centers” casa com o aumento, ano a ano, de registros de estelionato online no Brasil. Ele destaca que os magistrados do país precisam ficar atentos para evitar punições a vítimas: — Nesse crime, não há fronteiras. O Judiciário do Brasil vai alcançar alguém que venha recrutar vítimas aqui, mas o chefe da organização está fora do país. O que cai na rede aqui é quem tem papel menor na hierarquia. A atuação tem que ser massiva e mais estratégica. Alertas para não cair em golpes: A proposta parece boa demais: desconfie de ofertas de salário alto, comissões generosas, viagem paga e "trabalho fácil" no exterior. O aliciador pode ser um desconhecido, amigo de um amigo ou alguém que "reapareceu" para conquistar a sua confiança. Pressa e respostas vagas: frases como "é só hoje", "depois eu explico", "não conta para ninguém" ou "confia em mim" impedem que você pesquise. Empresas sérias não fogem de perguntas básicas, como nome, contrato, local de trabalho e quem trabalha lá. Querem saber mais de você: perguntas como "mora sozinho?", "tem filhos?", "está precisando de dinheiro", "quem sabe que você vai viajar" servem para mapear vulnerabilidades. Combinadas com promessas tentadoras e insistência, são um sinal clássico de seleção de alvos. Segurança em primeiro lugar:atenção se solicitarem documentos no início, se a viagem for para um destino vago, se não houver contrato claro ou se pedirem para que você viaje sozinho e sem avisar ninguém. Nunca entregue seu passaporte e sempre verifique a empresa e o consulado do país.