Luckas Viana dos Santos (esquerda) e Phelipe Ferreira em Mianmar — Foto: Divulgação “A liberdade não tem preço, não tem o que compre”, diz o garçom Phelipe Ferreira, de 27 anos, ao lembrar os dois meses em que foi vítima de tráfico humano em Mianmar, país do Sudeste Asiático. Resgatado há cerca de um ano, ele está reconstruindo a vida após ter sido obrigado a trabalhar em um centro de fraudes financeiras on-line e agredido por tentar fugir. “O mais difícil pra mim foi a vulnerabilidade. Eu tinha que dar golpe e ver as pessoas sofrendo extorsão. Eu me sentia vulnerável porque eu não podia fazer nada, eu não estava com a minha liberdade, eu estava preso. Eu via as pessoas sofrendo, levando choque na minha frente, e eu não podia fazer nada”, conta Phelipe. Cerca de outras 80 nacionalidades já foram vítimas de tráfico humano para trabalhar em centros de golpes até o final de 2025, segundo relatório da Interpol divulgado em março. Para a organização, as fraudes financeiras estão cada vez mais sofisticadas e, associadas ao tráfico de pessoas, se tornaram uma “ameaça global”. O documento registra ainda que, inicialmente, os centros de golpe se concentravam em países do Sudeste Asiático, mas passaram a ser identificados também no Oriente Médio, na África e na América Central. No Brasil, os últimos dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) sobre tráfico internacional de pessoas são de 2024 e apontam que a maioria dos casos foi para fins de trabalho em condições análogas à escravidão, sendo 35 ocorrências, envolvendo trabalho em plataformas digitais de aposta. Os destinos eram países do Sudeste Asiático, como Filipinas, Camboja, Mianmar e Laos. Outros cinco casos com o mesmo perfil de exploração foram registrados na Nigéria, no continente africano. Em 2026, o Ministério Público Federal (MPF) também apresentou três denúncias por tráfico humano internacional, com nove pessoas denunciadas. Ainda neste ano, foram registrados 161 procedimentos judiciais ligados entre inquéritos policiais e ações penais. Desse total, 81 casos envolvem tráfico internacional de pessoas e 80 tratam de contrabando de migrantes. Ao todo, 151 processos seguem em tramitação. A procuradora regional da República Stella Scampini, coordenadora da Unidade Nacional de Enfrentamento do Tráfico Internacional de Pessoas e do Contrabando de Migrantes (UNTC) do MPF, explica que o tráfico internacional de pessoas para aplicação de golpes virtuais já é observado em toda a América Latina. Em muitos casos, as vítimas são recrutadas pelas redes sociais ou por pessoas conhecidas, mas, ao chegarem ao destino, descobrem que as condições de trabalho, e até mesmo a função exercida, são diferentes do que foi prometido. Ela explica ainda que também identificaram tráfico de brasileiros para exploração sexual no Sudeste Asiático, mas que, na maioria das vezes, os casos estão ligados a aplicação de fraudes virtuais. “As vítimas ficam em uma condição análoga à escravidão, têm os documentos retidos e a liberdade restringida. Elas ficam, às vezes, em condição de servidão por dívida, ou seja, esses recrutadores acabam criando dívidas com passagens, alimentação e moradia e, com isso, vinculam essas pessoas ao local. Na grande maioria das vezes, também há restrição para conversar com familiares”, conta Scampini. A procuradora afirma ainda que foi observado um aumento dos casos de tráfico humano para o Sudeste Asiático nos último anos, mas que também começam a perceber o surgimento do tráfico humano para aplicação de golpes virtuais em outros continentes. O tráfico de pessoas nunca vem sozinho. Muitas vezes você tem conexão com o crime” “A gente verificou casos na África e aqui na América do Sul. São situações cuja investigação ainda está em andamento, mas isso mostra que está se dissipando, talvez até represente uma perda de força daquela região [do Sudeste Asiático]. Ainda está forte, mas acho que houve uma fase maior de expansão e, depois, uma estabilização. A partir daí, começaram a aparecer novos focos dessa modalidade de crime em outros lugares”, conta Scampini. Cintia Meireles, diretora da The Exodus Brasil, organização internacional que atua no combate ao tráfico humano, explica que, geralmente, as vítimas são pessoas jovens, que recebem falsas propostas para trabalhar com marketing, como modelos ou até como desenvolvedores de tecnologia. Foi o braço internacional da ONG que resgatou Phelipe em Mianmar. As vítimas “são jovens que têm o recorte da vulnerabilidade socioeconômica. Também há um componente emocional. São jovens que sonham, que idealizam uma vida melhor. E quando a gente sonha, o sonho nos tira a razão muitas vezes, nos tira o pensamento crítico. Porque a gente sonha tanto, que não consegue olhar as coisas ruins que podem estar ali na nossa frente”, explica Meireles. No fim de 2024 e início de 2025, Phelipe contou aos principais jornais do país que aceitou proposta para trabalhar como líder de um call center na Tailândia, com a promessa de um alto salário em dólares. Como já havia morado no país, decidiu embarcar. Ao chegar à Ásia, foi levado para Mianmar, onde passou a trabalhar cerca de 17 horas por dia, sob ameaças de punições físicas e restrição de contato com a família. Segundo ele, era obrigado a aplicar golpes conhecidos como “abate do porco”, em que a vítima é induzida a fazer investimentos cada vez maiores até perder todo o dinheiro, e “catfish”, que consiste na criação de perfis falsos para estabelecer relacionamentos amorosos fictícios com o objetivo de extorquir financeiramente as vítimas. Phelipe conta que precisou de ajuda psicológica e ainda tem pesadelos com a tentativa de fuga da central de golpes, que não foi bem-sucedida. Hoje, trabalha como garçom em um restaurante vegano, planeja voltar a estudar e se mudou para uma cidade da região metropolitana de São Paulo em busca de mais tranquilidade. “Brasileiro tem que se levantar de onde consegue. Eu tive que criar forças de onde eu não tinha para voltar à minha vida, porque eu não posso parar. As contas estão aí. Eu tô levando a minha vida do jeito que eu posso. Eu levo de lição não confiar nas pessoas, igual eu confiei, e, principalmente, prezar pela minha liberdade, porque você ter sua liberdade não tem preço. Não tem o que compre”, conta. Meireles e Scampini destacam que um dos principais desafios para combater o crime está na subnotificação. A procuradora explica que o que contribui para esse problema é o próprio medo da vítima de colaborar com a investigação com as organizações criminosas, por temer os recrutadores ou até mesmo por envolver uma exploração sexual. “O tráfico de pessoas nunca vem sozinho. Muitas vezes você tem conexão com o crime de organização criminosa, com o crime de falsidade documental, com o tráfico de drogas. Muitas vezes as mulas de drogas são vítimas de tráfico de pessoas e isso também gera uma grande dificuldade para identificação desses casos. Esse crime sempre está associado com corrupção”, explica Scampini. No Brasil, é possível denunciar o tráfico de pessoas por meio do Disque Direitos Humanos (Disque 100) e da Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180). Também é possível registrar uma denúncia no Serviço de Repressão ao Tráfico de Pessoas da Polícia Federal, pelo e-mail srtp.cgdihc.dicor@pf.gov.br. No exterior, a orientação é buscar a assistência consular.