A descrença populista não será vencida exigindo confiança cega — precisaremos conquistá-la com respeito democrático 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Vacinação contra a Covid-19 no Rio — Foto: Rebecca Alves/Agência O Globo/02-08-2022 Na semana passada, o ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos Anthony Fauci foi chamado ao Senado americano para depor sobre as políticas que implementou durante a pandemia de Covid-19. Senadores de direita o acusaram de ter escondido do público informações sobre a doença, de ter financiado o laboratório onde afirmam que o vírus foi criado e de ter imposto, sem necessidade, lockdowns e fechamento de escolas. Por orientação de seus advogados, Fauci invocou a Quinta Emenda e, repetindo sempre a mesma frase, recusou-se a responder a mais de cem perguntas. O assunto teve pouco destaque nos jornais brasileiros, mas impacto enorme nas redes sociais, com políticos e influenciadores de direita dizendo que o depoimento “demonstra” que Bolsonaro agiu corretamente durante a pandemia. Na última semana, o assunto motivou milhares de postagens no Brasil que, somadas, geraram 220 milhões de visualizações no Instagram e 74 milhões de visualizações no Facebook. O secretário de Saúde de Trump, Robert Kennedy Jr., encontrou mil páginas de um diário de Fauci “num computador do governo” e as encaminhou ao senador Rand Paul. Paul alegou que o diário demonstra que Fauci mentira ao Congresso e o convocou a depor. O depoimento reacendeu as controvérsias em torno da Covid-19 e nos dá a oportunidade de reavaliar, com alguma distância, como as autoridades médicas e científicas conduziram as políticas de saúde em meio à crise. Durante a pandemia, a direita populista organizou a desconfiança difusa que parte da população sente diante das lideranças e das instituições científicas — essa desconfiança passou a ter defensores e porta-vozes. Naquele momento de emergência, as autoridades se viram diante de uma dupla tarefa: tinham de dar orientação sanitária a uma população com medo e, ao mesmo tempo, lutar para reafirmar sua autoridade e legitimidade epistêmica. Com frequência, a opção foi tratar a população com condescendência. Em vez de explicarem detalhadamente as medidas para convencê-la, boa parte das instituições médicas, governamentais e midiáticas comunicou as orientações como se estivessem plenamente respaldadas por certeza científica — ainda que, naquele momento, houvesse poucas certezas. As instituições não tentaram convencer, comunicaram a orientação que havia sido deliberada. E, como muitas dessas orientações eram incertas, a estratégia teve custo reputacional. Pesquisa do Pew Research Center apontou queda na confiança nos cientistas de 14 pontos percentuais desde o início da pandemia. Entre os republicanos, chegou a 22 pontos. A opção por uma política de orientação, e não de persuasão, se deveu à urgência do momento, que pedia respostas claras e rápidas. Além disso, parecia haver o entendimento de que uma estratégia de persuasão implicaria rebaixar os cientistas ao mesmo nível da massa populista ignorante. O diário de Fauci revela o contraste entre as dúvidas e reflexões privadas e a comunicação pública assertiva e cheia de certezas. Isso não significa que Fauci tenha mentido, mas, para os populistas no Senado, tem sido apresentado como comprovação de sua falsidade e dissimulação. A situação foi ainda agravada porque muito do que foi comunicado como verdade indiscutível se mostrou frágil ou equivocado. Fauci inicialmente minimizou o risco da Covid-19, deu orientações confusas e, com idas e vindas sobre o uso de máscaras, postergou a reabertura das escolas e minimizou os riscos de infecção pós-vacina para incentivar a adesão. Todas essas decisões são defensáveis, à luz das circunstâncias difíceis daquele momento. Mas, como a própria legitimidade da autoridade científica estava em disputa, não bastava anunciá-las como conclusões técnicas; era necessário explicar as incertezas, os critérios e os custos envolvidos. Num momento tão arraigadamente populista, talvez tivesse sido necessária uma abordagem que combinasse orientação institucional firme a um esforço de persuasão de massa. A descrença populista não será vencida exigindo confiança cega — precisaremos conquistá-la com respeito democrático.