Temos de concentrar recursos em programas robustos, com financiamento regular, metas claras 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Laboratório de tecnologia imunológica da Fiocruz — Foto: Júlia Aguiar/ O Globo O Brasil construiu um sistema de fomento à pesquisa reconhecido como uma das grandes conquistas institucionais. Foi fruto de uma visão de Estado e da atuação decisiva da comunidade científica. A criação do CNPq e da Capes, em 1951, a consolidação da Finep, o fortalecimento das fundações estaduais de amparo à pesquisa e da pós-graduação expressam esse pacto histórico entre o Estado e a ciência. Os resultados são evidentes. O país ampliou fortemente sua produção científica, formou mestres e doutores em escala nacional, criou programas de excelência e desenvolveu competências em saúde, energia, agricultura, engenharia, ciências sociais, ambiente, tecnologia e inovação. Nossas universidades públicas respondem pela maior parte da produção científica nacional. Segundo relatório divulgado em 2025 pela Agência Bori e pela Elsevier, com base na produção de 2024, o país manteve a 14ª posição no ranking global de artigos científicos. A despeito disso, devemos refletir sobre o modelo atual de fomento. O sistema que nos trouxe até aqui talvez não seja suficiente para enfrentar os desafios das próximas décadas. Grande parte do financiamento à pesquisa ainda se organiza por editais fragmentados, muitas vezes com recursos insuficientes. Essa lógica, embora tenha méritos, estimula competição excessiva entre pesquisadores e instituições. A ciência contemporânea requer outra escala. A neoindustrialização brasileira, a transformação digital, a inteligência artificial, a transição energética, a crise climática, a segurança alimentar, a saúde pública, a soberania sanitária, a defesa da Amazônia e a produção de tecnologias críticas exigem cooperação, planejamento e financiamento estruturante. Precisamos de um novo pacto nacional para o fomento à ciência. Um pacto que preserve a liberdade acadêmica e a pesquisa básica, mas organize missões estratégicas para o país, mobilizando universidades, institutos de pesquisa, empresas, governos e sociedade em torno de objetivos comuns. Um modelo que estimule redes nacionais de cooperação, e não apenas competição por editais. Precisamos concentrar recursos em programas robustos, com financiamento regular, metas claras e avaliação rigorosa. É necessário fortalecer laboratórios nacionais, infraestruturas compartilhadas, plataformas tecnológicas e centros de excelência, articulando-os com grupos emergentes e instituições de regiões com menor capacidade científica, para reduzir assimetrias e ampliar a cooperação. O Brasil precisa compreender que ciência é investimento estratégico e base da soberania, da competitividade econômica, da qualidade das políticas públicas e da capacidade de decidir seu futuro. A comunidade científica, que ajudou a construir o sistema atual, deve participar da formulação do novo modelo. Não haverá política científica forte sem diálogo, nem futuro se continuarmos presos a mecanismos que fragmentam esforços e colocam pesquisadores em competição por recursos insuficientes. O desafio é transformar um sistema virtuoso em outro mais estratégico, cooperativo e orientado ao desenvolvimento nacional. O Brasil já mostrou que sabe produzir ciência de excelência. Agora, precisa organizá-la em torno dos grandes projetos do país. *Roberto Medronho é reitor da UFRJ
Precisamos de um novo pacto nacional para o fomento à ciência
Temos de concentrar recursos em programas robustos, com financiamento regular, metas claras







