Sinto-me no dever de discordar do colega colunista Joel Pinheiro da Fonseca: não há motivo real nenhum que justifique sequer um centésimo do escarcéu em torno dos comentários privados do médico americano Anthony Fauci sobre a pandemia de Covid-19 quando ele era um dos principais assessores oficiais do governo Trump. O barulho é o proverbial pastel de vento ou, como talvez prefiram os gringos, um "nothingburger" –um sanduíche recheado com o nada.
Digo isso, em primeiro lugar, por conta das questões mais palpáveis de substância científica. Quem está querendo condenar Fauci por não ter deixado publicamente na mesa a hipótese de uma origem laboratorial do vírus Sars-CoV-2, causador da pandemia, esquece que os apontamentos feitos por ele mencionando conversas sobre essa possibilidade são de janeiro de 2020.
Ora, isso significa que era tão cedo na cronologia pandêmica que o primeiro caso brasileiro da doença só seria confirmado cerca de um mês depois, por exemplo. Por mais desmemoriadas que estejam as pessoas –ou pior, fingindo amnésia–, não é possível que não se recordem da horrenda "névoa da guerra" que circundou aqueles primeiros tempos.
Em janeiro de 2020, era difícil afirmar qualquer coisa com certeza, mas havia vários precedentes claros para vírus pandêmicos –o chamado "spillover" ou transbordamento de espécies de animais para humanos– e absolutamente zero exemplos de pandemias surgidas em laboratório, de forma acidental ou, pior ainda, deliberada.








