Sucesso da fabricante de chips CXMT prova que investimento público em empresas promissoras compensa, mas não é simples repetir o modelo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cruzamento no parque tecnológico de Hefei — Foto: Marcelo Ninio O desembarque em Hefei engana. Não há o choque de modernidade que outras capitais de províncias na China oferecem logo de cara. Aqui, a modesta estação ferroviária tem o clima de uma cidade meio parada no tempo. Nada que indique que Hefei é sede de gigantes de tecnologia — e uma das apostas mais bem-sucedidas da China no setor. Na semana passada, um deles deu o choque que o governo esperava, depois de anos de investimento. Em sua estreia na Bolsa de Xangai, as ações da ChangXin Memory Technologies (CXMT) saltaram 466%, fazendo da fabricante de chips a empresa mais valorizada da China. Na euforia de ver sua conta bancária bater US$ 15 bilhões em um dia, o presidente da empresa, Zhu Yiming, prometeu repassar 40% aos funcionários da empresa. Por trás da aparência de fortuna instantânea está uma década de planejamento estratégico, em que a CXMT se beneficiou da demanda por chips turbinada pela febre da inteligência artificial (IA). Mas ela não teria disparado sem o empurrão do governo. Co-fundada por um fundo de investimento ligado à prefeitura de Hefei, a empresa foi idealizada para suprir uma brecha do mercado e também superar uma disputa geopolítica, em meio às restrições impostas pelos Estados Unidos na competição tecnológica. Os ventos favoráveis resultaram na ascensão meteórica da CXMT. Quando a empresa foi fundada, em 2016, a China carecia de produção doméstica de chips de memória DRAM, vital para armazenar dados em computadores e todo tipo de equipamentos avançados. Até então, o país dependia inteiramente de fornecedores estrangeiros, Samsung e SK Hynix (Coreia do Sul) e Micron (EUA). Hoje a CXMT é a quarta força, com 8% do mercado global. O lançamento estrondoso na bolsa consolidou a empresa como o exemplo mais bem sucedido da aposta que a China fez no papel do Estado como motor do avanço em áreas estratégicas. É uma nova roupagem da antiga simbiose entre os setores público e privado, agora conhecida como o “Modelo de Hefei” pelo nome da cidade onde ele foi desenvolvido. A CXMT demonstrou que o investimento público precoce compensa. O modelo tem ajudado a redefinir a economia chinesa e a levar a tecnologia ao topo do ranking das maiores empresas do país, que costumava ser ocupado por estatais pesadonas. E claro, chamou a atenção para a simpática Hefei, cidade de pouco mais de 9 milhões de habitantes no leste do país. Desde que lançou o modelo, há uma década, o município investiu em empresas da fronteira tecnológica, de veículos elétricos a IA. A novidade: deixou de lado os subsídios, preferindo entrar como parceiro no capital de risco. Deu certo para os dois lados. Empresas como a fabricante de veículos elétricos Nio prosperaram, Hefei subiu na lista das cidades com maior crescimento econômico da China. No parque tecnológico da cidade, a via principal é conhecida como a "avenida do quantum”, pela alta concentração de empresas que fazem parte da cadeia de suprimento tecnológico. Olhando o vai e vem entre os escritórios, a maioria parece ter menos de 30 anos, muitos atraídos pelo programa de recrutamento de talentos do governo. Delegações de outras províncias e do exterior não param de chegar. Todos querendo emular o sucesso de Hefei. É um modelo difícil de exportar, pela combinação única de fatores que favorecem a parceria do Estado com o setor privado. Mas seu sucesso serve de inspiração.
Uma visita à cidade chinesa que redefiniu o conceito de risco
Sucesso da fabricante de chips CXMT prova que investimento público em empresas promissoras compensa, mas não é simples repetir o modelo








