“Eu posso realmente sentir como as tecnologias de uma cidade inteligente tornam a vida mais fácil e eficiente. As ruas têm sensores ligados ao ‘cérebro da cidade’, que ajustam os semáforos em tempo real, e eu sigo sem encontrar sinal fechado,” diz Li Zichen, morador da Nova Área de Xiong’an, cidade planejada que representa o ápice do urbanismo digital chinês. Localizada a cerca de 100 km a sudoeste de Pequim, Xiong’an foi concebida para reduzir a pressão sobre a capital, absorvendo funções administrativas, acadêmicas e industriais não essenciais. Ao mesmo tempo, funciona como um laboratório de cidade inteligente, incorporando desde sua origem tecnologias de inteligência artificial, gestão digital integrada, sistemas de transporte de alta eficiência e infraestrutura de baixo carbono, com forte ênfase em sustentabilidade. “É uma combinação de design urbano inteligente com transporte de alta tecnologia e funções como o uso de big data para controlar o consumo de energia e o uso da água,” define Faith Chan, diretor da Escola de Ciências Geográficas da Universidade de Nottingham Ningbo da China. O brasileiro José Renato Peneluppi Jr., doutor em administração pública pela Universidade Huazhong de Ciência e Tecnologia, ao visitar Xiong’an, em 2021, encontrou um grande canteiro de obras e quase nenhuma vida urbana, contrastando com a infraestrutura de alta qualidade, com sistemas subterrâneos e redes digitais, que indicava uma cidade do futuro sendo erguida. “A experiência remetia a Brasília no início de sua construção, evocando simbolicamente a chegada de Oscar Niemeyer e Juscelino Kubitschek ao local de uma capital ainda por nascer - com a diferença de que, neste caso, chega-se em um trem-bala, e trata-se de outro tipo de capital, a tecnológica”, recorda Peneluppi. Segundo Chan, o design de Xiong’an como cidade esponja a torna menos propensa a inundações. “Rios e lagos são interligados, formando uma rede que engloba toda a área, mantendo funcional a operação dos diferentes corredores ecológicos”, explica. Ele destaca os jardins de chuva ao longo das vias, que filtram, absorvem e retêm o escoamento, permitindo que a água das chuvas recarregue naturalmente o lençol freático. “São plantadas apenas árvores de espécies nativas, e a energia renovável é integrada ao projeto para dar suporte à operação sustentável de toda a área”. Morador de Wuhan, na Província de Hubei, Peneluppi é autor de um estudo que analisa a capacidade de coordenação da administração pública chinesa durante a crise da covid-19, relacionando a resposta à pandemia ao desenvolvimento de cidades inteligentes, como o uso integrado de infraestrutura digital, sistemas de informação e tecnologias de comunicação na gestão da saúde pública, bem como na organização do transporte urbano e dos serviços de entrega. “Foram mobilizadas redes de conectividade avançada, aplicativos de suporte sanitário e estruturas urbanas de atendimento distribuídas nos bairros, articuladas com sistemas de monitoramento epidemiológico e logística de testagem e atendimento,” afirma o brasileiro, ressaltando que isso foi possível porque a infraestrutura já estava amadurecida para ser implementada. Segundo ele, o conceito de cidades inteligentes na China começou a se desenvolver no 12º Plano Quinquenal (2011-2015), ganhou escala no 13º (2016-2020), com a digitalização urbana e o uso de big data, e tornou-se central no 14º Plano (2021-2025), com redes 5G, IA e governança urbana integrada. Com quase 5 milhões de estações base 5G e 210 milhões de usuários de banda larga gigabit, a China estabeleceu plataformas unificadas de governança urbana, com mais de 90% dos serviços governamentais disponíveis on-line e a meta de alcançar a transformação digital abrangente em mais de 50 cidades até 2027. “No delta do rio das Pérolas, especialmente em Guangzhou e Shenzhen, os chamados ‘cérebros urbanos’ combinam o tripé da cidade inteligente - IA, 5G e big data - para gestão urbana em tempo real,” diz Peneluppi. Isso inclui semáforos inteligentes que ajustam fluxos de trânsito, sistemas de vigilância urbana com análise automatizada de imagens e aplicativos de governo digital que concentram serviços como saúde, transporte e pagamentos, afirma ele. “O foco do desenvolvimento está mudando de projetos inteligentes isolados para uma reestruturação digital abrangente em toda a cidade, visando criar sistemas operacionais urbanos inteligentes e unificados,” diz Han Liyun, pesquisadora da Global Governance Institution, acrescentando que as cidades inteligentes chinesas buscam gerar uma inovação orientada pelo conhecimento e formar um mecanismo sustentável de governança integrada que combina orientação governamental, vitalidade do mercado e engajamento público. Han destaca as parcerias público-privadas como o principal modelo para a construção de cidades inteligentes na China, pois combinam a alocação eficiente de recursos com uma execução mais rápida dos projetos. “O governo assume o planejamento geral e formula as políticas, priorizando os serviços públicos e o bem-estar das pessoas. As empresas aproveitam seus pontos fortes em tecnologia, capital e experiência operacional para diversificar os cenários de aplicação, elevando o valor prático das infraestruturas de cidades inteligentes."